TeE Entrevista: Lígia Botelho

Para a estreia do nosso novo quadros de entrevistas, nós começamos com ela: Lígia Botelho, que é professora de interpretação e expressão corporal, atriz, diretora teatral, cenógrafa, arquiteta, preparadora de elenco e mais! Ela recebeu nosso colaborador John para um divertido bate papo que vocês podem conferir a seguir.

John: LÍGIA VOCÊ TEM QUANTOS ANOS DE CARREIRA?
Lígia: Menino, aí números, eu sou de humanas… Mas acho já tenho 30 anos de carreira.

J: FALA PRA GENTE UM POUCO SOBRE COMO FOI SEU COMEÇO E SUA TRAJETÓRIA NAS ARTES.
L: Ah como muita gente, meu primeiro contato com Teatro foi na igreja. Lembro de uma frase de uma das pecinhas: “eu sou o sino de belém e vim para o nosso bem”.

Eu vim de uma família simples, filha de pintor de carros e dona de casa que também foi professora. Sempre estudei em escola pública. Eu queria estudar numa escola particular, mas não tinha dinheiro. E eu sempre quis fazer artes, desde criança. Eu desenhava olhos, desenhava pessoas. Aí no ensino médio, eu fiz técnico em edificações, desenhos de arquitetura, porque achei que talvez se aproximasse um pouco desse universo. Sem dinheiro pra pagar uma escola de artes, eu aproveitava as atividades ligadas às artes incentivadas nas aulas de português. A gente apresentava música, trabalhos de dança-teatro. Aprendi a gostar de literatura e poesia com meus professores de português, que são minhas grandes referências.

E dentro dos trabalhos artísticos na escola, eu comecei mesmo cantando numa banda de rock, e depois numa banda de MPB. Apresentávamos nos festivais do colégio, no teatro da USP. Chamava Asas do Vento o segundo grupo, super bicho-grilo, a gente cantava de branco e de pés descalços. Eu estava envolvida em tudo.

E quando perdi meu pai no ensino médio, eu prestei vestibular pra arquitetura. Eu já trabalhava como desenhista, não me preenchia mas eu gostava. Prestei também pra Artes Cênicas na UNICAMP, que acabei passando na primeira fase, e por medo de não bancar me sustentar em Campinas e sustentar minha família em SP, acabei me jogando no curso de arquitetura mesmo.

Mas eu não me arrependo da minha formação, que foi meio feito cavalo. Eu fui. Eu e minha amiga Paula Preta, a gente tem formação artística no movimento da vida, nos processos artísticos, nas oficinas, nos grupos que a gente encontra, nas trocas de experiência. Eu fiz muito teatro amador, oficina, fiz parte da ocupação do Tendal da Lapa, que teve orientação artística do Celso Frateschi. Participei de muitas oficinas culturais, eu virei rata de oficina. Essa era minha realidade, eu fazia junto com a faculdade de arquitetura.

Foram poucos cursos que eu realmente paguei. Estudei com com Zé Celso, com Renato Borghi, com o Antunes, com Eliana Fonseca, Parlapatões, Adriana Lessa, Gerson Steves, Gerald Thomas, Marco Antônio Brás… Eu fui estudando com as pessoas, elas me interessavam e eu ia atrás. Eu não fiz uma escola com aquele currículo tradicional de Teatro. Passei por várias companhias, trabalhei com pessoas que tenho grande admiração. Estudei com o TAPA, na época o Rodrigo Lombardi era da minha turma, e também com o Oficina, e outros. Trabalhei com Zedu Neves, com Roberto Vignati, com Fábio Torres, com a Cia. Teatro X, com vários.

Eu vi que eu gostava muito, que me preenchia, que me sentia plena ali dentro do teatro. E não sentia aquilo nos escritórios de arquitetura. Ah, aí eu saí da arquitetura porque eu já ganhava mal lá, porque então não ganhar mal fazendo algo que eu gosto mesmo né.

Fonte: Peça “Fuck You Baby”

Então eu comecei a trabalhar como professora de expressão corporal e interpretação numa escola que se chamava William Shakespeare e como monitora pelo Projeto Formação de Público. Nele, nós arte-educadores ministrávamos formações em linguagem teatral para educadores da rede pública, monitorias teatrais nas salas de aula e mediação de debates entre os atores e o público dos espetáculos contratados pela prefeitura. O intuito era desenvolver a fruição da linguagem teatral e a leitura das temáticas junto aos estudantes da rede. Este projeto foi muito enriquecedor, porque além de toda troca de experiências, a maioria em comunidades periféricas, eu tive a oportunidade de ter aulas com Gianni Ratto, Maria Silvia, Betti, Flávio Desgranges e Flávio Aguiar. Eles nos davam a formação para que depois nos construíssemos os cursos e as atividades com os alunos.

Depois eu fiz um mestrado em teatro no Instituto de Artes da UNESP pra sistematizar meus conhecimentos e academicamente ter uma pesquisa na área. E nesse mestrado eu pesquiso a relação entre corpo, jogo e a cena. Foi quando eu trabalhei no programa Vocacional no Jd Periperi, com pessoas entre 10 e 70 anos. Eu analisei meu processo de trabalho com este público e fui entendendo o que funcionava e o que não enquanto prática teatral. E descobri que eu amo dar aula, eu sou uma artista que virou professora. Dando aulas eu pesquiso vários processos artísticos, aprendo muito, isso me ensinou a ser uma professora. Trabalhar com teatro possibilita uma escuta sensível, a capacidade de poder se expressar e se entender como corpo social e político.

Capa do mestrado da Lígia, representando os diversos tecidos sociais.

J: VOCÊ SENTIU QUE DE ALGUMA FORMA A SUA FORMAÇÃO EM ARQUITETURA INFLUENCIOU O SEU FAZER ARTÍSTICO?
L: Sim, com certeza. Porque quando comecei a dar aula de Teatro e por em prática todo meu conhecimento, eu percebi por uma aluna que me perguntou se eu tinha alguma formação nas artes visuais. Ela disse que eu tinha uma questão com o volume das cenas, com a estética, só que de uma forma mais profunda. Fui entendendo aos poucos que a arquitetura que eu queria pesquisar é a do tecido social dentro das artes cênicas. Como que meu corpo político se relaciona, se expressa, e dá voz a diversos discursos possíveis. Esses espaços que esses corpos frequentam e querem entender, questionar, problematizar, é essa arquitetura que me interessa.

Lígia em cenas do filme Lula – filho do Brasil (2009)

J: VOCÊ FALOU DE ALGUNS TRABALHOS. VOCÊ VÊ MUITA DIFERENÇA DO MERCADO DE TRABALHO ATUAL PRA QUANDO VOCÊ COMEÇOU? SE ESSA INSTABILIDADE NA ÁREA JÁ TINHA?
L: Em termos de estabilidade, a arte-educação foi uma maneira de garantir que eu tivesse algo mais certo. Eu não tenho condições de viver de projetos. Tem gente que vive de projetos de espetáculos, mas tendo uma condição financeira que permite que o façam, mas eu sempre precisei de estabilidade para me manter. O desafio é viver somente da arte. Somente do Teatro, do cinema. Sempre foi.

A diferença é que hoje em dia as políticas públicas, embora hajam várias, sofreram um sucateamento muito grande por conta de mudanças de gestões, falta de continuidade. O que vivemos hoje é diferente do que vivemos de 2000 a 2004, onde as políticas públicas aconteciam em rede: Vocacional, Ocupação dos teatros distritais, Fomento e Formação de Público. Isto fazia com que a cidade fervesse teatro. Hoje é tudo feito separadamente numa lógica neoliberal, que não é pensado para a democratização das áreas, é algo muito mais seletivo.

Eu fiz parte de alguns encontros do movimento arte contra a barbárie. Nós nos manifestávamos em favor de uma arte processual, de pesquisa, de investigação, que tivesse acesso a políticas públicas dignas contra esta visão da arte como mercadoria. Arte é patrimônio e identidade de um povo. E porque é, a gente precisa ter um dinheiro público para que possamos desenvolver pesquisas, transformá-las em materialidade artística e devolver pra população aquele dinheiro que eles mesmos investiram. O problema é não haver uma vontade política de continuidade. Muita coisa boa acaba. Muda o gestor, acaba, porque quer fazer outra coisa. Ou quer fazer evento. Porque evento aparece, agora fomento de público de periferia não. A gente tem uma riqueza de produções artísticas nas periferias que as pessoas não sabem que existem. Não se dá crédito, há muito preconceito. Parece que só tem valor a arte que aparece, a arte da Globo.

J: VOCÊ COMO PROFESSORA ENCONTROU E ENCONTRA MUITAS PESSOAS INICIANTES NA ÁREA. O QUE VOCÊ ACHA QUE É ESSENCIAL PRA QUEM ESTÁ COMEÇANDO?

L: Muita perseverança. É uma área difícil. Eu vivo da minha arte porque eu lutei muito. Eu tenho vários amigos que não tiveram a manha de largar o emprego tradicional e viver da arte. Porque é um risco. Eu to sempre trabalhando e contando meu dinheiro, eu sou mãe solo, sou eu por eu. Pra muitas pessoas é mais fácil trabalhar em algo que da um respaldo financeiro, garantias, uma estrutura diferente. Eu resolvi romper com essa suposta segurança. E isso é o mais desafiador, você permanecer com seu propósito de se formar artista, se manter artista e sobreviver da arte. Eu dou aula, eu faço teatro, eu faço cinema, eu faço meus trabalhos como preparadora de elenco, publicidade. E o que sempre me moveu e que procuro repassar a meus alunos é: nunca desistam dos seus sonhos! Pode soar romântico, mas é isso. ‘Não’ é o que você vai mais ouvir, não dá pra desistir no primeiro. Muita gente diz pra fazer algo que dê dinheiro, que seja funcional, que dê pra comprar macarrão, eletrodoméstico, pagar contas… E esquece que teatro alimenta a alma, que é expressão da alma, é reflexão crítica, e não é mercadoria.

Nosso papel como artista é provocar reflexão e para isso funcionamos como uma espécie de parabólica, a gente recebe tudo que acontece no mundo, no Brasil, percebe com uma escuta ativa sensível, e transforma em arte. O nosso trabalho é um discurso provocador que faz o espectador se perceber e perceber o mundo em que vive. É um dos trabalhos mais importantes que existem, e infelizmente dentro do retrocesso político atual a gente é muito julgado como vagabundo, como menor. É preciso ter lucidez para não ser conduzido como gado em mundo de fake news. Ter perseverança e fazer aquilo que você gosta é a chave. Isso é pra qualquer área.

Foto do espetáculo ‘Minha cidade pode não ser a sua’ (2015 a 2018)

J: E VOCÊ FALOU DOS SONHOS. VOCÊ LÍGIA BOTELHO, QUAL QUE É SEU GRANDE SONHO HOJE?

L: Eu tenho dois sonhos como artista. Eu tenho sonho de fazer um trabalho solo, um monólogo. Uma espécie de um teatro documentário, não no viés performático, mas essencialmente teatro. Que tenha um discurso sobre o feminino. Acredito que peça é pra todo mundo, e eu sou feminista sim, mas não quero fazer nada fragmentado. Não quero segregação. Eu quero dar voz a muitas que já foram silenciadas. A minha e dos meus antepassados, da minha mãe, da minha avó. É um trabalho autoral, que discuta o feminino, nosso corpo político e poético.

E eu também tenho muita vontade de fazer muito mais cinema do que eu já fiz. É uma área muito fechada, que estava melhorando no Brasil, mas está hoje passando por uma fase difícil. Nunca pensei que viveria em tempos de censura.. Tem uma série que fiz que está parada na Ancine, isto é um absurdo. Arte não pode passar por crivo de governantes fascistas, isto é censura pura.

Bem, sou atriz essencialmente de teatro, mas que almeja muito fazer mais cinema, então quem tá lendo gente, ó arrasou… Eu já fiz muita publicidade, mas cinema mesmo, nem tanto. Eu fiz “Lula – filho do Brasil” (2009); “O novelo”, um longa que filmei ano passado e que está em fase de montagem; algumas participações em séries como “Destino SP” e “Hard”, ambas da HBO, mas eu nunca protagonizei no cinema. Fiz alguns curtas: “Ensaio de Sedução”, “Sobre Hamlet”, este último com roteiro do meu querido Walmir Pavam.

Bastidores gravação do curta Aula de Sedução (2014)

J: VOCÊ COMENTOU DAS SÉRIES. ESSE NOVO MOVIMENTO DE SÉRIES DE STREAMING, NETFLIX, HBO, TE INTERESSA TRABALHAR?

L: Pra caramba. Como eu já falei, fiz uma participação numa série chamada HARD, que é uma versão brasileira de uma série francesa da HBO. E foi super divertido. Eu acho super bacana, o Brasil tem diretores, escritores, artistas incríveis que não são muito reconhecidos. O Brasil tem uma potência criativa imensa. Infelizmente ainda existe uma cultura de que ‘o que é do Brasil não é legal, só é legal o que é estrangeiro’. Mas cara, a gente produz coisa legal pra caramba, dentro dos recursos que a gente tem. A gente tem muito potencial. Espero que essa fase obscura de desvalorização do cinema nacional passe logo.

Mas eu estou feliz, eu faço o que eu gosto, Teatro me alimenta. Parir um espetáculo é parir várias vidas, e eu como mãe me alimento muito disso. Me nutre muito. Quero fazer mais teatro, continuar fazendo o que eu faço e ser respeitada por isso. Não quero ser famosa, valorizada nesse sentido. Mas quero sim é saber que tem reconhecimento e valor o que eu faço.

Foto da entrevista

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