Tee entrevista: wallie ruy

A nossa próxima entrevistada do blog é a diva, atriz, diretora, orientadora artística de interpretação pra teatro, TV e cinema, Wallie Ruy. Ela bateu um papo super importante com a gente sobre sua carreira e sua luta com a arte, e você já pode conferir a seguir!

Fonte: @wallieruy
@s_santoian

JOHN: WALLIE, VOCÊ É ATRIZ, PROFESSORA, E SEGUNDO SEU INSTAGRAM (@WALLIERUY), TRANSVESTIGÊNERE, ANTROPÓFAGA, GUERRILHEIRA AFETIVA E MUITO MAIS. MUITO OBRIGADO POR TER TOPADO DAR ESSA ENTREVISTA PRA GENTE.

WALLIE: Não sei se topei não ainda (risos). O prazer é meu.

J: VOCÊ É PROFESSORA A QUANTO TEMPO?

W: Professora, nem me considero. Mas estou num processo de orientação educacional na arte acredito há dois anos e meio.

Na verdade, eu me formei em licenciatura mas eu nunca vislumbrei a docência, ela aconteceu a partir dos meus trabalhos de atuação. Não me vejo professora, porque ‘professora’ tem uma coisa muito da minha época, que agora eu tenho 18 (risos), mas tinha esse lugar da pessoa que é guia, sabe de tudo, detentora da verdade absoluta. E quando me colocam nesse lugar, eu sei com toda a certeza que eu não sou. Mas acredito que seja orientadora da educação artística, no entendimento do despertar da arte daqueles que perpassam comigo no SENAC e nos cursos livres de interpretação pra TV que eu dou.

J: E VOCÊ FALOU DOS SEUS TRABALHOS, CONTA PRA GENTE COMO FOI O SEU COMEÇO NA ARTE, O QUE FOI O SEU “START”.

W: Eu acho que o começar a fazer arte é desde a infância, que as pessoas dizem “aí ta fazendo arte” como algo ruim, tem essa conotação do fazer arte como algo negativo, que na verdade é um processo criativo né, você está acessando alguns lugares críticos, inconscientes e ativos. Mas no entendimento da cena, do estar ali no palco…

J: VOCÊ COMEÇOU NO TEATRO MESMO?

W: Sim, no teatro. Engraçado, porque hoje um dos meus educandos disse: “ah eu tenho 20 anos e tenho 10 anos de carreira”, aí eu pensei “nossa tem quase a mesma quantidade de anos que eu”, porque eu digo que tenho 16 anos de carreira agora que tenho 33. Eu comecei mesmo em 2004, e eu considero que eu me profissionalizei a partir do meu primeiro trabalho que eu recebi por.

Projeto ‘Giganto’ exibido nas colunas do minhocão SP

J: ISSO FOI ANTES OU DEPOIS DA LICENCIATURA?

W: Logo depois, eu tinha feito alguns trabalhos ainda na academia e foi quando eu comecei a produzir trabalhos como carreira, então eles aconteciam concomitante ao meu processo educacional.

J: VOCÊ SE FORMOU ONDE ?

W: Em Ouro Preto, na UFOP, e foi ali que eu desenvolvi meu primeiro trabalho de performance. Eu pensei numa proposta que eu vendi, escrevi, produzi e apresentei, foi meu primeiro trabalho. É uma tríade de performances, que a primeira se chama “Você é o que é”, e que por acaso, quando se faz um trabalho artístico, a gente sempre parte daquilo que a gente procura se reconhecer, pensa ‘o que eu quero dizer ou fazer’. Mesmo que tenha sido contratado, você ainda vai fazer um trabalho encomendado a partir de um pensamento ou questionamento seu.

E aí “você é o que é” perpassou sobre a questão do corpo e seus padrões, na época foi isso. Eu ainda estava estudando, inclusive eu comecei a faculdade muito imatura. Sinto que eu aproveitei muito pouco do que eu poderia ter aproveitado, mas é o processo né, as coisas são como devem ser. Então foi ali que eu realmente comecei como performer.

J: LEGAL, E RECENTEMENTE VOCÊ ESTEVE EM RODA VIVA DO TEATRO OFICINA (2019-2020), ESTRELOU NO PREMIADO FILME ‘MARIE’ (2019), FEZ AS SÉRIES ‘TODA FORMA DE AMOR’ (2019) NO CANAL BRASIL, E UMA PARTICIPAÇÃO EM ‘NINGUÉM TÁ OLHANDO’ (2019) E ‘SPECTROS’ (2020) DA NETFLIX. COM O QUE MAIS VOCÊ TEM VONTADE DE TRABALHAR HOJE? ALGUM GRANDE SONHO DE CARREIRA?

W: Ah, sonhos são vários. Tenho vontade de fazer uma super-heroína da Marvel. Tenho vontade de protagonizar um longa sobre assuntos que me interessem. Queria de ser dirigida pelo Kleber Mendonça Filho, pelo Almodóvar, alguma coisa com Xavier Dolan, são estéticas que me agradam muito, e que me realizaria muito como profissional.

Gostaria também de dirigir pro cinema, mas não sei como isso seria ainda, porque estamos muito no mundo das idéias, não das execuções. E engraçado, você perguntou do começo, e aí foi pro ‘cume’ (risos), e pra chegar ali foi um processo gigantesco, foram anos.

Registro de cena da peça ‘Roda Viva’ (2019-2020) no Teatro Oficina
Fonte: @fotosdooficio

Até brinco com a ideia de cume, mas não acredito ser um processo de ascendência direta, de sucessos, mas sim de experiência e vivências. Então antes de estar no Oficina e protagonizar o filme, eu tive que perpassar por caminhos que foram fundamentais pra chegar onde estou, e que nem entendo como ápice, porque acho que ainda tem muito mais pra vivenciar. Mas passei por grupos amadores, grupos reais. Gosto de falar da questão da realidade, porque quando a gente fala “vamos falar sobre a netflix”, a netflix não é o auge né, o auge na verdade é meu trabalho todo, e infelizmente o reconhecimento se dá a partir dessas vitrines, mas o meu trabalho é anterior.

Eu achei engraçado quando a Renata Sorrah disse “gente eu tenho mais de 40 anos de carreira pras pessoas me reconhecerem como a mulher do meme”, e aí é nesse lugar que as vezes eu me sinto. Eu gosto do meus trabalhos claro, são conquistas e a gente quer ter reconhecimento, não só atores e atrizes, mas todo profissional. Só que eu tenho muito mais orgulho do trabalho que me levou a alcançar esses lugares. O processo inicial de concepção e debruçar em um lugar, muito mais artesanal, é onde eu tenho mais orgulho.

É muito engraçado, tudo o que eu penso em trabalho, eu sempre tive a certeza de que as coisas iam acontecer. Claro que “ah, você pensava em ser premiada, em receber um Kikito?”, eu nunca tive ideia que iria ganhar, as vezes ainda não cai a ficha pra mim. Mas é no sentido de que as coisas são muito possíveis de fato. Mas claro, gostaria muito de ganhar um Oscar. E um Kikito pra mim tem a mesma conotação, porque eu achava muito distante. São pessoas que receberam que a gente endeusa, coloca em altares, pessoas que são globais.

Uma vez antes de eu ganhar o prêmio, eu falei assim “ai agora eu quero ganhar um Emmy Internacional” e logo em seguida eu ganho um Kikito. Então é possível.

Recebendo o prêmio Kikito no Festival de Cinema de Gramado
Fonte: @festivaldecinemadegramado

J: VOCÊ FALOU DO ENDEUSAMENTO, VOCÊ ACHA QUE AGORA QUE VOCÊ GANHOU ESSE PRÊMIO, AS PESSOAS TE ENDEUSAM POR VOCÊ ESTAR NESSE LUGAR ?

W: Eu acho que as pessoas não que me endeusam, mas elas podem criar uma falsa impressão da realidade. De dizer que “só vou me sentir feliz com meu trabalho se eu alcançar isso, se eu fizer série na Netflix”. E não é a vitrine que importa, é sempre o processo que é mais interessante. Porque existem milhares de pessoas que deveriam ser reconhecidas e receber prêmios, que já perpassaram por essa existência, mas que desempenharam trabalhos incríveis e que são referências. O endeusamento não é a mim, mas é aos canais.

Recentemente eu apresentei pela primeira vez no Teatro Municipal de SP, aí eu brinco “pronto gente agora acabou não preciso fazer mais nada”. E não é isso né, de novo, são os processos e os caminhos. Apresentar no municipal é incrível, mas a maior experiência teatral que eu tive e que me atravessou muito foi uma das minhas primeiras performances que eu fiz numa sala de aula. Então é muito subjetivo, acredito que seja mais nesse lugar.

As pessoas se perdem com os vislumbramentos. Como no caso da Renata Sorah, eu não sou a atriz que fez clipe da Anitta, eu sou atriz que fez todos os meus trabalhos, e esse foi mais um.

Foto no palco do Teatro Municipal de SP
Fonte: @wallieruy

J: E VOCÊ FALOU DOS SEUS PROCESSOS ARTÍSTICOS, QUAL FOI A MAIOR DIFICULDADE QUE VOCÊ ENCONTROU NELES E ENCONTRA AINDA HOJE?

W: Financeiro, sobre tudo. Sabemos de como funciona e principalmente de como não-funciona, ainda mais quando a gente entende que esgotar as possibilidades dos artistas sobreviverem do seu ofício é a maneira de evitar ou obrigá-los a não produzir artisticamente. E a gente que é dessa área é que estimula o pensamento crítico, e pra política isso é um risco, por isso que eles estão cortando cultura.

Segundo, a questão de formação de espectadores. Então você produz arte e apresenta pra quem? Uma coisa é fazer trabalhos pra pessoas que são interessadas na área, o que é válido também, mas para quem fazemos é o grande ponto. Eu quero atravessar as paredes físicas dos lugares, não quero falar pra dentro, quero falar sempre pra fora. Inclusive, todo esse desfarelamento do poder artístico-cultural de uma sociedade ocorre justamente pela desvalorização e pelo não reconhecimento de um povo da arte que se produz naquele lugar.

A maior dificuldade é aproximar essas narrativas e linguagens das pessoas que mais deveriam se interessar, que são as que menos se interessam por arte e cultura, em contexto geral.

Aí num contexto mais micro, tem a questão de eu ser uma atriz trans, vários “por menores” de não acessibilidade e não representatividade dentro de um contexto maior, que é a inexistência da cultura.

J: A GENTE FALOU UM POUCO DE POLÍTICA, O CINEMA NACIONAL ESTÁ ENFRENTANDO UM MOMENTO MUITO DIFÍCIL DE CENSURA E POLÍTICAS GOVERNAMENTAIS DE RESTRIÇÕES. E MESMO ASSIM, TIVEMOS UM FILME DOCUMENTÁRIO INDICADO AO OSCAR, UMA DEMONSTRAÇÃO DE RESISTÊNCIA. COMO VOCÊ ACHA QUE É POSSÍVEL A GENTE RESISTIR ESSA ONDA DE RETROCESSO QUE ESTAMOS PASSANDO?

W: Não é a primeira vez que a gente passa por isso né, e a cultura ela não deixa de existir. Então a resistência vem nessa nova maneira de existir, encontrando novas formas, estratégias, ferramentas para atravessar essas barreiras. Crise vem a partir de processos de criação, então é nos momentos de crises onde se cria mais coisa, porque há a necessidade de dizer. Porque se não fosse dessa maneira, morreríamos.

Como produzir um trabalho por exemplo sobre minorias de população e políticas sem um respaldo do governo? Reconhecimento nosso lá fora é ótimo, mas o quanto isso se dá na prática? É preciso perceber quais são os padrões e parâmetros de financiamento, de aporte financeiro e estruturas de acessibilidade de um povo pra ver.

Temos um filme indicado no Oscar, mas quantos filmes nacionais estão nas nossas salas de cinemas? A quem interessa né, é por isso que falo da importância de formação de público. É preciso pensar na base antes de mais nada.

Cena do filme ‘Marie’ (2019)
Fonte: @wallieruy

J: E VOCÊ FALOU MUITO DE ATRAVESSAMENTOS, VOCÊ WALLIE, O QUE TE ATRAVESSA NA ARTE HOJE?

W: Eu acho que agora, o que me atravessa é a verdade. É o sentimento de verdade constante. Me interessa estéticas? Sim. Me interessa novas linguagens? Sim. Mas como produzir com verdade, no aqui e agora, onde o silenciamento é produzido constantemente é o que realmente me atravessa.

J: E WALLIE, HOJE VOCÊ OCUPA LUGARES QUE FORAM MUITO BATALHADOS E SÃO MUITO CELEBRADOS POR NÓS. VOCÊ ACHA QUE DE ALGUMA FORMA A CLASSE ARTÍSTICA É MAIS INCLUSIVA PRA PESSOAS LGBTQIA+, EM ESPECIAL PRA PESSOAS TRANS, OU NÃO?

W: Eu acho que a arte ela sempre foi uma estrutura que determina poder. Se a gente volta na idade média, commedia del’arte, ou até antes: só homens representavam. A arte era inclusiva? Não era. Aí depois as mulheres passaram a integrar: “Olha, as mulheres podem representar as mulheres, que incrível né, que ideia”. Aí passou um tempo: “gente, vamos chamar os negros pra fazer papéis? Olha que ideia, negros podem fazer negros”.

Aí agora, estamos falando da questão do transfake. Olha que ideia: ao invés de chamar pessoas cis pra representar de maneira caricatural a minha existência, porque não chamar uma ou um transexual pra representar esses papéis, já que temos atores e atrizes trans.

Partindo desse pressuposto, hoje no Brasil a arte é inclusiva? Não, porque nós não ocupamos nossos espaços. A gente consegue identificar que há uma certa acessibilidade dessa população, uma ascensão e um crescimento exponencial de mil e tantos porcento. E “nossa que incrível”? Não, antes era 0, hoje temos 10. Você pode contar nos dedos o número de pessoas que você vê ocupando esses lugares, até alguns lugares midiáticos. Lembra que falei da questão das crises? Então, estamos produzindo, mas de maneira marginal, nas beiradas.

Então acho que nas circunstâncias que a gente se encontra, eu não posso falar que a arte é inclusiva porque a Wallie está, eu tenho que falar que é inclusiva onde existam muitas Wallies ocupando esse meu lugar. Não me interessa ser a primeira, me interessa ser muitas.

Pré-estreia da série ‘Toda forma de amor’ (2019)
Fonte: @wallieruy

J: SIM, E AS VEZES EU TENHO A SENSAÇÃO DE QUE NÓS DA CLASSE ARTÍSTICA NOS COLOCAMOS NUMA BOLHA, ONDE TODO MUNDO SE CONSIDERA SUPER “DESCONSTRUÍDXS”, PRA FRENTEX, LIVRE DE TODO PRECONCEITO, E ESQUECEM QUE A DESCONSTRUÇÃO VEM DE MUITO ESTUDO, LEITURA, EMPATIA, RECONHECIMENTO…

W: E abrir mão de privilégios.

J: EXATO.  VOCÊ SENTE ISSO NOS SEUS AMBIENTES DE TRABALHO E NAS PESSOAS QUE VOCÊ CONVIVE DENTRO DA CLASSE ARTÍSTICA?

W: Sim, sempre. Quando a gente fala sobre esses lugares de poder da arte, é porque ela detém conhecimento, espaços. Ou seja, se eu sou secretária de cultura de uma cidade, eu como mulher trans obviamente eu vou olhar para essa população que nunca teve acesso a essas produções. Um discurso que se dá muito é: “eu não chamei atrizes trans, porque não tem atrizes trans capacitadas”. Ouço isso muito.

Aí a pergunta que eu faço: “ok, já que não tem, que eu poderia passar uma lista, mas já que você insiste que não tem, então é responsabilidade sua capacitá-las. Então crie programas que capacite essas mulheres que querem ser atrizes.” Porque se a gente não reverter essa situação, a gente sempre vai partir do pressuposto que não tem. 

Se a gente considerar um caso que eu fui convidada pra ler um texto pra um longa, era sobre uma assistente social que já foi garota de programa e fazia assistência à pessoas que sofreram violência física e psicológica. Aí eu lendo aquilo, a maneira como que a personagem falava, eu pensei “não sei se essa é uma fala de uma mulher trans branca, eu acho que é papel de uma mulher trans preta”. Porque tem um linguajar que é da periferia. Não é que não existam mulheres trans ou travestis brancas periféricas, existem, mas a gente está falando justamente dessa questão da representatividade, da existência.

Abrir mão de privilégios é isso, eu disse “olha, adoraria fazer esse filme, mas eu não deveria fazer”. É a mesma coisa que a gente fala do transfake, atores e atrizes cis podem fazer papéis de pessoas trans? Podem, são atores. Eu posso fazer um monstro se eu quiser, posso fazer uma mulher cis, minha formação é vivenciar um outro papel. Agora quando a gente fala de equiparidade de oportunidades, a pergunta é: você pode? Pode. Você deve?

Aí fica pra cada um pensar. Naquele momento eu entendi que eu não deveria. Eu poderia ter feito? Sim, as pessoas poderiam ter assistido ou não, percebido ou não. Eu achei que não devia.

Cena da série ‘Ninguém tá olhando’ (2019) na Netlfix

J: E PRA GENTE TERMINAR, O QUE VOCÊ ACHA QUE É ESSENCIAL PRA GENTE VIVER, SOBREVIVER E RESISTIR HOJE DA ARTE NO BRASIL?

W: Ser verdadeiro. O que é muito difícil, porque pra ser de verdade é preciso bancar muita coisa, inclusive pra fazer arte só funciona, só existe quando é de verdade. A arte ela não é imitação de nada, a arte ela é o aqui e o agora, é produção e organismo vivo.

Só faça se te atravessar de fato, se estiver intrinsecamente ligada à sua vida e existência. E consciência de que não são os canais de vislumbre que estamos falando, estamos falando dos atravessamentos. Como sobrevive: atravessando, o outro e a si mesmo. Faça de verdade e resista, porque os atravessamentos não nos dão o que de comer. Então se tiver difícil, crie coletivos, porque são muitos atravessamentos juntos (risos). É isso.

Foto ‘espontânea’ da entrevista

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