TEE ENTREVISTA: LUI VIZOTTO

Nosso próximo entrevistado do blog é Lui Vizotto, ator da série Auto Posto do Comedy Central e do musical O Mágico de Ó. Ele conversou com a gente sobre a construção da série e do seu personagem Wesley e você já pode conferir a seguir!

Divulgação Auto Posto @autopostoamigosdonelson

TeE: CONTA PRA GENTE UM POUCO SOBRE OS SEUS TRABALHOS PRÉ-PANDEMIA, O QUE VOCÊ ESTAVA FAZENDO ANTES DE COMEÇAR A QUARENTENA ?

LUI: A gente gravou a série ‘Auto Posto‘ no início do ano, em janeiro e fevereiro. Então comecei a ensaiar uma peça chamada “Prova de Fogo“, da Consuelo de Castro, que estava pra estrear em maio, e acabou ficando suspenso. Estava ensaiando também um romance inglês chamado “Um grande salto“, que conseguimos dar uma certa continuidade agora na pandemia. Além também da continuação do musical “O mágico de Ó”, que a gente fez ano passado no teatro, depois virou filme, e ficamos no Teatro João Caetano por um tempo. Tínhamos fechado mais uma temporada no Sesc, o que infelizmente acabou sendo suspenso.

Dilvugação @lui.vizotto

TeE: E VOCÊ COMENTOU DA CONTINUIDADE DOS ENSAIOS, VOCÊ CHEGOU A FAZER ALGUMA APRESENTAÇÃO NESSE FORMATO ONLINE, SEJA PELO ZOOM OU POR OUTRA PLATAFORMA?

LUI: Em termos de peça no formato de espetáculo, não. ‘Um grande salto‘, por exemplo, é um espetáculo que a gente acredita ser muito forte o encontro e a troca com o público, então vislumbramos ele para o pós pandemia mesmo. É um texto que trata um tema muito complexo – o suicídio – só que de uma forma mais leve, em alguns momentos até bem divertido. Então a questão do encontro é justamente muito necessária, tanto para os personagens da peça, quanto pra quem assiste.

O que fizemos nesse período foi dar desenvolvimento ao projeto. Aproveitando esses processos de lives, vídeo conferências, de pessoas abertas a debater, conversar, e acabamos fazendo um ciclo de leituras. Dividimos o texto em 5 partes, lendo uma parte por semana com convidados diferentes. Lemos com pessoas do teatro, da psicanálise, da assistência social… Então aproveitamos pra adentrar nesse universo das personagens, até porque esse tema não pode ser abordado com irresponsabilidade. Foi bem proveitoso, tivemos um público legal, e aprendemos mais do que a gente esperava.

TeE: VOCÊ COMENTOU QUE VOCÊS COMEÇARAM AS GRAVAÇÕES DA SÉRIE ‘AUTO POSTO’ DO COMEDY CENTRAL ESSE ANO. PRA QUEM NÃO CONHECE A SÉRIE, CONTA PRA GENTE SOBRE O QUE ELA FALA.

LUI: A série é sobre um posto de gasolina chamado “auto posto amigos do Nelson”. O Nelson é o dono do posto, um ex cantor romântico de sucesso que abriu esse posto para aproveitar o restinho de sucesso que ele ainda tinha e fazer um negócio deslanchar. Então, no início do história a gente entende que o posto está comemorando 50 anos de existência.

Tem uma linguagem quase documentária, parecido com The Office. Tem depoimentos, e é como se as câmeras flagrassem coisas que não eram pra serem vistas, então a comemoração justifica essa linguagem de um falso documentário.

Nesse posto tem altas figuras, eu vejo esses personagens quase que como um micro-cosmo do Brasil: é um empreendimento quase falindo e todo mundo ali tendo que se virar pra manter o emprego, tentando fazer o melhor possível. O Nelson tem uma relação quase promíscua com a fiscalização, com as relações burocráticas, e os personagens estão cada um lutando pela sua própria sobrevivência dentro da loucura de um empresário explorador. É bem divertido.

TeE: E AS PESSOAS CONSEGUEM ASSISTIR POR ONDE?

LUI: O 10º episódio estreou dia 11 de agosto no Comedy Central, eles passam reprises, mas já está totalmente disponível no NOW. Sei que estão negociando também para entrar nos serviços de streaming o quanto antes, mas não está fechado ainda.

TeE: VOCÊS TEM PREVISÃO PARA UMA PRÓXIMA TEMPORADA?

LUI: A gente tem o desejo muito grande. Nós tivemos índices de audiência bem altos dentro da TV paga, a série foi muito bem aceita. Ainda nada oficial, até por conta da pandemia. Somos uma equipe de mais de 100 pessoas, então é uma situação delicada.

TeE: E SOBRE SEU PERSONAGEM WESLEY, NÓS RECEBEMOS A DESCRIÇÃO DELE DE UM PERSONAGEM: GÓTICO, NÃO-BINÁRIO, HOMOSSEXUAL E RELIGIOSO QUE TRABALHA NO CAIXA DO POSTO. PRA QUEM VÊ DE FORA, PODEM SER CARACTERÍSTICAS DE UMA CERTA FORMA CONFLITUANTES. COMO QUE FOI A CRIAÇÃO E DAR VIDA A ESSE PERSONAGEM COM ESSES TRAÇOS?

LUI: Essas questões de gênero, da orientação sexual e da fé dele são idéias que conforme fomos gravando e assistindo, acabamos entendendo que ele está sempre em mutação e em crescimento. Então nenhum desses rótulos são suficientes para defini-lo, e isso é o mais legal do trabalho com ele. E na série, ele tem um canal chamado ‘Art Dark‘, que fala sobre o mundo gótico, já que ele é fissurado por sangue, coisas macabras e afins.

O Marcelo Botta, criador e diretor da série, quando escreveu esse personagem, escreveu inspirado em alguns instagramers e youtubers que ele encontrou na rede. E aí o Wesley vem fora dos padrões heteronormativos, por vezes se retratando no feminino e as vezes no masculino, tendo uma construção estética mais andrógena, usando maquiagem gótica, e com uma fé religiosa muito forte. Então tem coisas que são de fato conflitantes, mas eu vejo que hoje são ideias que podem andar juntas e se somar, ainda mais no nosso mundo de hoje que está em constante desconstrução.

De início, a gente olhava e dizia: ah, o Wesley é gay. E hoje, talvez seja até um preconceito nosso dizer que ele é gay só porque ele não se encaixa em um padrão. Se na série ele não demonstra interesse afetivo ou sexual por ninguém, a gente não tem como dizer que ele é gay. Talvez isso só seja essa necessidade de colocar pessoas em rótulos falando mais alto.

Divulgação @lui.vizotto

É um personagem muito difícil de ser colocado em um potinho só, em algum rótulo. Ele é multifacetado e está em constante transformação, o que o humaniza muito e torna ele ainda mais interessante de trabalhar.

E a função dele dentro desse posto é de atendente da conveniência, então ele lida com os produtos vencidos do Nelson e diretamente com o público. Durante toda a série, tem apenas um momento que ele precisa se posicionar em um caso de homofobia. Então apesar de não ser o foco da série, ele teve uma recepção muito positiva do público, porque ele é carismático, talentoso, e está além de somente representar as pautas identitárias, que são sim muito importantes e devem ser defendidas, mas não são o que define esse personagem.

Eu vejo ele como um brasileiro nato. Alguém que lida com as adversidades com muita criatividade, tendo que se reinventar diariamente para sobreviver e viver com todas as dificuldades. E acredito que isso cativa quem assiste, essa pulsão de vida e de alegria.

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