Um Olhar sobre: Jorge Andrade

Aluísio Jorge de Andrade Franco, ou, para nós: Jorge Andrade. Nasceu em Barretos, interior de SP em 21 de maio de 1922. Jorge era membro de família de barões do café que conheceu a decadência ao passar das épocas, talvez seja daí que vem boa parte da visão de sua obra como: A Moratória, encenada, em 1955, por Gianni Ratto para a companhia de Maria Della Costa, espetáculo que lança a jovem Fernanda Montenegro
Jorge Andrade está entre os maiores dramaturgos e escritores brasileiros. Sua obra segue uma ampla narrativa que aborda importantes momentos da história do Brasil. De fins do século XVIII até fins do século XX.

Jorge chegou a cursar Escola de Arte Dramática (EAD), para ser ator depois de receber um conselho da atriz Cacilda Becker, mas logo passou para dramaturgia. 
O Faqueiro de Prata, escrito em 1951 foi o primeiro texto do dramaturgo. Em seguida, no mesmo ano, escreve O Telescópio, ato punico, de cunho realista, foi  dirigido por Paulo Francis, no Rio de Janeiro, com o elenco da Teatro Nacional de Comédia (TNC), em 1957.

Publicou, em 1970, seu “ciclo” dramático, “Marta, a Árvore e o Relógio”, narrando a formação da sociedade paulista e brasileira. Esse volume, na verdade é um compilado de quase todos os textos teatrais de Jorge escritos durante a sua carreira. Nele Andrade teve o cuidado de unificar 10 peças, transformando-as em uma saga, cruzando fatos, referências e personagens que viajam de um texto para outro.
O “ciclo” contam com textos organizados de acordo com a ordem cronológica dos acontecimentos históricos e não a ordem em que foram escritos, e ssa organição foi feita pessoalmente pelo autor. Assim, as obras da maturidade antecedem as obras da juventude no “ciclo”. As Confrarias e O Sumidouro, abrem o volume, porém são obras vieram depois de O Telescópio, Pedreira das Almas e Vereda da Salvação, por exemplo.

Com esse procedimento, Jorge nos presenteia com um vasto “romance” onde encontramos registrados o desbravamento do Brasil pelos bandeirantes, as lutas políticas dos séculos XVIII e XIX e os destinos dos descendentes dos que protagonizaram tais conflitos. Vemos a energia de pessoas sendo transformada em fraqueza ao longo dessa “saga”. Um vigor que se torna vulnerabilidade e incapacidade de luta.

As Confrarias, escrita em 1969, é a primeira peça do ciclo e se passa no Brasil colônia do século XVIII.
Traz a cena Marta, mãe que busca dar a seu filho José – ator, morto por participar de uma conjuração pela independência do país – uma sepultura, às confrarias das igrejas do Brasil colônia.
A peça discute a luta libertária e a responsabilidade de cada um no destino de um todo, um coletivo.

Pedreira das Almas traz o contraste do ambiente de morte material e humana com a esperança na vida do planalto, pra onde vão os construtores da civilização do café. Há também um confronto entre o velho e o novo, o culto aos mortos ou à vida – causa que leva Martiniano a morte. Além disso, Jorge descreve a derrota dos liberais ante as forças absolutistas, na Revolução de 1842.

A Moratória conta a decadência dos herdeiros de Gabriel de Pedreira das Almas. Esses se tornaram grandes latifundiários mas acabam perdendo terra e fortuna na crise do café, que se deu após o estouro da bolsa de Nova York em 1929.

O Telescópio, drama em um ato, cronológicamente foi escrita em 1951, antes das demais peças do ciclo. Nela vemos um quadro posterior ao de A Moratória, onde Jorge traz à tona a decadência de costumes e parda de valores de uma aristocrática familia de barões do café.

Já em Vereda da Salvação, entra em foco o mundo dos trabalhadores braçais. Um grupo de gente inculta, que vive na miséria e assim se torna presa fácil do fanatismo religioso. E tudo acaba culminando no assassinato de uma criança que julgam estar possuída pelo demônio.

Laura Cardoso e Luiz Mello na peça Vereda da Salvação de Jorge Andrade, direção de Antunes Filho

Senhora na Boca do Lixo, obra seguinte do ciclo, é mais um quadro onde encontramos a análise da decadência da aristocracia rural. Censurada pelo regime militar, estreou em 1967 em Portugal, e só é montada em nosso país, em 1968 pela atriz Eva Todor, com direção de Dulcina de Moraes.
Em foco temos Noêmia, mulher de família tradicional que faz viagens à Europa e traz produtos importados para vender as amigas, sem a mínima consciência de que o que faz é contrabando. Presa, acaba encontrando a liberdade em função das ligações com altas personalidades que ainda mantém.

Em seguida vemos A Escada. Escrita em 1961, se transformou no primeiro grande sucesso de público da carreira do dramaturgo, após ser encenada pelo TBC.
Um casal de aristocráticos descendentes de senhores rurais, vive de um lado ao outro, passando um tempo em cada um dos apartamentos dos filhos. Quando seus descendentes passam a não conseguir tomar conta do casal, levanta-se a questão da internação em um asilo. Assim Jorge nos traz a discussão uma juventude que se afasta de antigos padrões e as relações afetivas entra classes distintas. Além, de sermos presenteados com o escritor Vicente, que serve como arter ego do dramaturgo em suas obras.

Os Ossos do Barão, de 1963, traz a cena as relações entre diferentes categorias sociais.
Mostra desde o imigritante que enriquece com seu trabalho e adquire a mansão que um dia foi do barão de Jaraguá, até um casamento contratual para salvar um nome decadente.

Para fechar o ciclo, temos Rasto Atrás e O Sumidouro (escritas nos fins dos anos 60).
A primeira é uma biografia teatral que mostra Vicente aos 5, aos 15 e aos 43 anos. Rasto traz aos nossos olhos as fases da construção da personalidade de Vicente, além de da convivência conflituosa com o pai, e a difuldade em ser dramaturgo no Brasil. Na realidade, Rasto Atrás retrata um ajuste de contas com o passado do autor e seus irreconciliáveis conflitos com o pai, que não aceita nele a existência de um artista.
O Sumidouro volta ao Brasil colônia e retalhos da vida de Fernão Dias e seu filho mameluco José Dias que vivem em conflito. A peça oscila agilmente entre o passado e presente dramáticos e faz um rigoroso retrato da brasilidade, com suas contradições e problemas insolúveis.

Pela publicação desse “ciclo” de peças sob o nome de Marta, A Árvore e O Relógio, em 1970, Jorge recebe o troféu Molière. Ao longo da carreira, também ganha outras premiações como:
– Prêmio Saci de melhor autor por A Moratória, 1955, e por Os Ossos do Barão, 1963;
– Prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais – APCT, de melhor autor por Pedreira das Almas, 1958; A Escada, em 1961; e Vereda da Salvação, 1964.
– E o 1º lugar de melhor autor do Serviço Nacional de Teatro – SNT por Rasto Atrás.

A ditadura não deixa de inspirar o autor: para a Primeira Feira Paulista de Opinião escreve A Receita, encenação de Augusto Boal, em 1968; e em 1977 lança Milagre na Cela, proibida pela Censura, porque exibe o estupro praticado por um delegado, além da violência dos torturadores durante as sessões de sevícias de uma freira. Baseada em fatos reais, o texto somente conseguirá subir à cena em 1981, numa encenação carioca do grupo Barr.

As telenovelas afastaram Jorge do teatro. Entre esses trabalhos estão: Os Ossos do Barão, inicialmente em 1973 e regravada em 1997, O Grito, 1976; As Gaivotas, 1979; O Fiel e a Pedra, 1981; Os Adolescentes, 1981;  A Escada, 1981; Ninho da Serpente, 1982; e Mulher Diaba, em 1983.
Vereda da Salvação transforma-se em filme, dirigido por Anselmo Duarte, em 1965. Em 1978 publicou o romance autobiográfico “Labirinto”, 

Jorge Andrade morre aos 61 anos. Muitos atribuem sua morte ao estresse causado pelo exercício da dramaturgia.

Texto por: Gabrielle Risso

Bibliografia:
Enciclopédia Itaú: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa349682/jorge-andrade&gt;
História do Teatro Brasileiro – Volume II – João Roberto Faria
Moderna Dramaturgia Brasileira – Sábato Magaldi

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