“Do mito ao rito”

Por Nathalia Affel

“Ele (o ator), tem, em sua própria pessoa, uma individualidade interior e exterior que pode ser vividamente ou indistintamente desenvolvida. É possível que não haja, em sua natureza, nem a vilania de uma personagem, nem a nobreza de outro. Mas as sementes dessas qualidades lá estarão, porque temos em nós os elementos de todas as características humanas, boas ou más. O ator deve usar sua arte e sua técnica para descobrir, por métodos naturais, os elementos que precisa desenvolver para o seu papel. Deste modo a alma da pessoa que ele interpreta será uma combinação dos elementos vivos do seu próprio ser”

(STANISLAVKSI, 1982; P. 197)

Pablo Picasso, Parade (170m²), 1.917. Centre Pompidou – Metz

Por muito tempo pensei em como começar por aqui e não consegui, mesmo, o TeE que o diga. As Artes e a Psicologia estão tão entrelaçadas, que rodei procurando um ponto de início sem me satisfazer com nenhum até o interfone tocar para avisar de uma encomenda que tinha feito há semanas. Meus novos livros de Psicologia Analítica tinham chegado, e, um deles, o mito: Ártemis e Hipólito. E então, me contentei com a conclusão de que dá para começar por qualquer lado mesmo, mas nenhum mais íntimo do teatro do que a Mitologia Grega.

A Psicologia Analítica de Jung (conto melhor dela em outro dia) tem um jeitinho especial de tentar entender a natureza humana, principalmente por meio dos mitos, em que as figuras mitológicas ou arquétipos, se expressam e encontram uma maneira de explicar o que até então era inexplicável. Qualquer semelhança, mera coincidência, será?

De jeito nenhum. Afinal, nosso processo de criação se baseia na construção de uma personalidade, de personagens verticais e humanos. O que, então, melhor do que as ciências psicológicas para nos acompanhar nesse caminho de preparação e criação? Um personagem completo goza de profundidade em todas as suas áreas, do corpo à voz, da voz à psique.

Ainda hoje conseguimos utilizar esses mitos para compreender as complexidades e particularidades não só da natureza humana como das dinâmicas sociais, agregando conhecimento ao artista da variedade de comportamentos, sentimentos, sensações e reações possíveis diante de situações diversas. Ouso dizer até que nos ajuda a mapear padrões, caminhos, e principalmente, explicar de modo simbólico o que nem sempre conseguimos mostrar de maneira prática.

O ser humano antigo não é assim tão diferente do moderno, o que muda são suas hipóteses, habilidades, e claro, a maneira com a qual entendem os eventos naturais. Nós deixamos de lado a reprodução simbólica na criação de mitos e vivemos a projeção interna desses arquétipos, que também requer um modo de interpretação. Então convido vocês a se aventurarem nas mitologias, não só para refinamento da bagagem de referências, mas também, desenvolvimento de um conhecimento mais profundo, que liga a humanidade como um todo e está longe de ser palpável ou, até mesmo, racional.

Dica: Além dos mitos que frequentemente acompanhamos em nossos estudos cênicos, sugiro a leitura de Eros e Psiquê de Erich Neumann e Ártemis e Hipólito de Rafael López-Pedraza. Obras incríveis que trazem uma leitura analítica das imagens de cada mito.

“Há pelo menos uma diferença entre o teatro e a vida! No teatro temos várias vidas: rei, mendigo, velho, moço, amante, rejeitado (…) É beber ovinho de uma existência inteira na taça frágil de uma hora…”

Domingos Oliveira

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