Jerzy Grotowski e seu Teatro Laboratório

Jerzy Grotowski foi um diretor, encenador e pesquisador teatral do século XX, que estudou profundamente os estudos de Stanislavski, Meyerhold, Brecht, Vakhtangov, Artaud e outros, além de estudar teatro indiano, japonês e chinês. Mas Grotowski não se satisfazia com nenhuma das antigas técnicas teatrais, então criou seu teatro laboratório (de pesquisas/vanguarda) para desenvolver uma técnica própria, além de desenvolver na prática os estudos que Artaud não pode em vida. Vem com a gente que nós te contaremos melhor sobre como foram esses estudos, e porque Grotowski é um dos nossos pesquisadores favoritos!

Fonte: ninateka.pl

Com o crescimento e fortalecimento da televisão e do cinema, Grotowski defendia que o teatro tinha que se estabelecer como uma arte diferenciada e despojada, aumentando o contato físico com o público. Propõe então um teatro pobre, não no sentido financeiro, mas no sentido material. Não defendia a utilização de “esculturas atuais ou idéias eletrônicas” nas peças, mas sim encenações mais “cruas”, evitando a ideia de que teatro é uma “combinação de matérias”. Busca uma eliminação de tudo que é supérfluo, superficial, de tudo aquilo que esconde ou bloqueia a relação e comunhão sensível e natural com o público.

Para ele, a arte teatral se estabelece a partir do encontro: dos atores entre si e dos atores com a platéia. Defendia que o trabalho de ator deve ser de total entrega/doação, através de uma tensão elevada ao extremo que busca o amadurecimento do seu ofício, que tenta eliminar resistências físicas aos processos psíquicos, levando a um completo despojamento e desnudamento do que há de mais íntimo, humano e sensível dentro de si. A partir dessa premissa, o ator se torna “arquetipal”, ou seja, que subjuga, fascina o público, violenta os esteriótipos confortáveis que conhece, mostra-lhe sua crueldade inerente e oferece-lhe uma criação artística única que o espectador não seria capaz de reproduzir igual. Bonito né?

Grotowski desejava liberar as fontes de criação do homem, reconstruindo a totalidade da personalidade carnal e psíquica, forjando um ser completo, que se liberta de seus complexos, que conhece a si mesmo e se domina. Pode parecer algo utópico, mas ele acreditava que esse processo é difícil, pois o encontro de resistências e bloqueios é natural, porém sua transgressão é possível através do treinamento.

O treinamento de seus laboratórios não seguia uma ordem ou imposição de sequências de exercícios classificados, cabendo a cada um encontrar o melhor caminho a partir de princípios básicos. Os princípios corporais defendem que nenhum movimento deve ser feito simplesmente por fazer, realizados no vazio, mas sim motivados e justificados pelas relações exteriores. Recomendava exercícios de biomecânica ou ioga para encontrar direções de pesquisa que flexibilizem o corpo e favorecem o encaminhamento psíquico do ator, tornando assim seu corpo um lugar de todas as possibilidades. Os princípios vocais defendem que o ator deve explorar ao máximo seus ressonadores e modos articulatórios, com a finalidade de sublinhar, parodiar e exteriorizar as motivações interiores e as fases psíquicas das personagens. Evitando o evidente, o clichê, o banal, o imediatamente compreensível.

Com os treinamentos, ele buscava trabalhar as associações do ator, que são tanto corporais como mentais. “Ao lado do personagem, os atores revelam seu eu profundo, confessa sua autêntica natureza. Personagem mais ator psicanalisado vão oferecer no palco os transes do seu corpo, a nudez da sua alma, confessando suas fraquezas, e mostrando aos espectadores os limites do esforço vocal e corporal”.

Trabalhar sobre os ideais de Grotowski não é um caminho fácil, pois há embate direto com questões e bloqueios pessoais, trazendo muitas vezes o ator à exaustão física e mental. Mas pela minha experiência, é uma das linhas de pesquisa que mais trazem à tona verdade, sentimento e tesão pela interpretação. E você, já estudou a fundo ou fez algo relacionado à pesquisa de Grotowski? Conta pra gente!

REFERÊNCIAS:

  • ASLAN, Odette – O Ator no Século XX – Editora Perspectiva, 1994
  • GROTOWSKI, Jerzy – Em Busca de Um Teatro Pobre – Editora Civilização Brasileira, 1992

AUTOR: JOHN MARQUES

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