Fomos conferir: Brian ou Brenda?

Com direção de Yara de Novaes e Carlos Gradim, dramaturgia de Franz Keppler, o espetáculo é um convite à reflexão acerca de construção identitária a partir do caso real de David Reimer, e nós do TeE contamos tudo que achamos, vem com a gente!

Fonte: Divulgação Heloisa Bortz

A peça começa mostrando a que veio: escapar do conceito de padrão. Todos os atores usam roupas que mesclam vestuários de ambos os gêneros, e todos transitam entre os personagens, que são definidos por placas com seus respectivos nomes, apesar de alguns atores sustentarem alguns personagens por maior tempo na peça. A encenação também segue uma proposta épica (para entender melhor leia nosso texto sobre Brecht), onde o cenário, composto por um andaime de madeira simples, serve de apoio para dar vida aos diversos lugares que perpassam os personagens.

O time de atores heterogêneos, composto por Augusto Madeira (veterano parceiro da diretora), Daniel Tavares, Giovanni Venturini, Jimmy Wong, Kay Sara, Lavínia Pannunzio, Marcella Maia e Paulo Campos, é extremamente competente e consegue construir uma ambientação que transmuta entre alegria, sofrimento, desespero, abuso de poder e perda durante a peça toda, sem perder o ritmo ou se perder entre todas as rápidas transições de cenas e personagens. Madeira, além de mostrar um pai de família emocionado com a paternidade, constrói uma humanidade intrínseca ao revelar conflitos internos advindos de uma impotência diante de uma situação que põe em risco a vida do seu filho Brian, mostrando junto com os outros atores, cuidado e respeito às histórias dessas personas em cena.

Fonte: Divulgação Heloisa Bortz

Mas a grande potência do espetáculo está na discussão acerca da identidade de gênero. A história de Reimer no palco traz força ao discurso de que uma identidade construída a força, imposta por padrões irreais, acaba limitando o ser, privando-o de reconhecimento e aceitação, podendo até resultar em tragédias a esses corpos reprimidos. Colocando em pauta os limites dos tratamentos médicos e psiquiátricos, a peça aborda um caso de violência física e psicológica a uma criança que não se identifica no corpo que lhe é imposto.

Com finalização de um manifesto da atriz Marcella Maia, que fala diretamente ao público com força sobre sua luta identitária, a peça se torna essencial para ver, ouvir, entender e criar empatia com o tema, principalmente no Brasil, um dos países que mais mata pessoas trans no mundo. Saímos do teatro não apenas impressionados com a qualidade técnica do espetáculo, mas empolgados com o lugar de discussão que nos é proposto e as possibilidades que contar a história do David Reimer possibilita. Recomendamos que assistam, vai mexer com vocês. Evoé!

SERVIÇO:

Classificação etária: 14 anos
Duração: 100 min
Centro Cultura São Paulo (CCSP) – Sala Jardel Filho – Rua Vergueiro, 1000, Paraíso
Temporada: 27 de setembro a 20 de outubro
Às sextas e aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 20h
Ingressos: grátis, distribuídos uma hora antes de cada sessão

Viga Espaço Cênico – Rua Capote Valente, 1323, Pinheiros
Temporada: 25 de outubro a 17 de novembro
Às sextas e aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 19h
Ingressos: R$20 (inteira) e R$10 (meia-entrada)

ESCRITO POR: JOHN MARQUES

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