TeE entrevista: Luiz Rodrigues

O nosso próximo entrevistado do blog é ator, professor, diretor e pesquisador de teatro musical, e nosso colaborador John teve um papo com ele sobre sua perspectiva de mercado e sobre sua carreira que você confere a seguir, vem com a gente!

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Foto espetáculo ‘Senhor das Moscas’ (2017)

JOHN: LUIZ, VOCÊ É ATOR, CANTOR, DANÇARINO, PROFESOR DE INTERPRETAÇÃO, CANTO E DANÇA PARA TEATRO MUSICAL, DIRETOR E PRODUTOR DA SUA COMPANHIA.
FALA UM POUCO SOBRE SUA CIA. PRA GENTE.

Luiz: O nome dela é Opsis. Não sei se configura como uma companhia, porque a gente está engatinhando nesse processo de ser uma, de manter os atores fixamente. Eu tenho um núcleo de atores que se reúnem e a gente vai pensando o que quer e tentando produzir.

J: VOCÊS ESTÃO QUANTO TEMPO JUNTOS?
L: O núcleo fixo dela existe aí bem há uns 10 anos. A gente começou dando cursos, quase uma escola de teatro que se aprofundou em musical, e que vem produzindo tem uns 4 anos.

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Foto do espetáculo ‘Canções para amores líquidos’ (2018)

J: E CONTA COMO FOI O COMEÇO DA SUA CARREIRA, E O QUE TE LEVOU AO TEATRO MUSICAL.
L: Eu comecei no teatro “normal”. Com 15 pra 16 anos, eu fiz um curso técnico e nele tinha um professor que dirigia montagens no macunaíma, o Zé Henrique de Paula. Ele chamava a Fernanda Maia pra trabalharem juntos, que era a diretora musical, e eu vi deles os dois primeiros musicais da minha vida. Um era ‘Senhora dos Afogados’ (Nelson Rodrigues), que eles adaptaram e colocaram músicas do Chico Buarque, Milton Nascimento, era lindíssimo; e também o ‘Cabaret’ (Joe Masteroff) .

Os dois espetáculos me atraíram por um motivo que eu não sei dizer ao certo, mas foi onde entendi que eu gostava muito de juntar esse négocio de teatro e música.

E aí fui pra faculdade, fiz licenciatura em Artes Cênicas na ECA-USP, e na academia você não pode falar que gosta de teatro musical, é quase um insulto para alguns professores. É meio que visto como uma gênero menor por ser comercial, por ter esse apelo. Isso falando dos grandes musicais, das grandes produções. E embora muitos professores ali fazem teatro musical, eles não assumem.

E foi um momento que em paralelo com a licenciatura eu começei a estudar dança, canto de fato e comecei a juntar tudo. Sempre estudei canto e dança paralelo com o teatro.

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Foto do espetáculo ‘Apenas uma vez – Once in concert’ (2014)

J: VOCÊ NÃO FEZ ENTÃO UMA ESCOLA TRADICIONAL COM CURRÍCULO DE TEATRO MUSICAL?
L: Não. Pelo tempo que as escolas se propõe a fazer, eu acho que é pouco tempo de formação, não dá. Uma turma pequena de uns 15 alunos fazendo aula de canto não tem tempo para se formar propriamente. Apesar de ser um bom lugar para ganhar uma introdução, um caminho para começar na coisa, dizer que há uma formação de atores de teatro musical, acho complexo.

J: E SEUS DOIS ÚLTIMOS TRABALHOS FORAM “CANÇÕES PARA AMORES LÍQUIDOS” (2018), EM QUE VOCÊ DIRIGIU E ATUOU, E “SENHOR DAS MOSCAS” (2017), QUE VOCÊ FOI ATOR. EXISTE UMA PREFERÊNCIA ENTRE DIRIGIR OU ATUAR?
L: Não, depende do momento na verdade. Eu percebi que eu não gosto de atuar nas coisas que eu tenho idéia para dirigir. Eu gosto muito de trabalhar como ator, mesmo, mas eu gosto de trabalhar com idéias de outros diretores. O Zé Henrique, que eu trabalhei no “Senhor das Moscas”, juntou as idéias dele com as minhas. E quando eu dirijo, é um outro lugar de troca de idéias, são as minhas idéias em diálogos com os atores. Gosto muito das duas coisas, mas são lugares bem diferentes.

J: E VOCÊ FALOU DOS SEUS TRABALHOS E DA SUA CIA, TEM ALGUM TEXTO OU ALGUM PROJETO QUE VOCÊ TEM MUITA VONTADE DE FAZER, E POR QUALQUER QUESTÃO, SEJA VERBA, DISPONIBILIDADE, ACABOU NÃO FAZENDO AINDA?
L: Tem! Tem um projeto que se tudo der certo começa esse ano. Mas recentemente descobri que não sou o único interessado em fazê-lo (risos). Mas é incrível, a idéia dele é partir da história de uma mulher chamada Araci Guimarães Rosa, que foi embaixadora do Brasil na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Ela mandava ilegalmente judeus pra cá, conseguia passaportes. E também na época da ditadura, ela escondia os presos políticos na sua casa, já casada com o Guimarães Rosa.

E essa mulher, aos 90 e tantos anos, morreu com Alzheimer, sem lembrar de muitas das coisas que fez na vida. Então contar um pouco a história dessa mulher, batendo de frente com esse grande apagamento histórico que estamos vivendo, é um dos grandes projetos que quero fazer.

J: E DENTRO DO TEATRO MUSICAL, EXISTEM VÁRIOS GENÊROS DE PEÇA, DESDE OS CLÁSSICOS COMO FANTASMA DA ÓPERA, OS DA DISNEY, ALÉM DE TER TAMBÉM MUITOS GRUPOS INDEPENDENTES NO BRASIL COMO O ‘NÚCLEO EXPERIMENTAL’ E O ‘BARCA DOS CORAÇÕES PARTIDOS’, QUE FAZEM PESQUISAS DE TEATRO MUSICAL PARA CONTAR HISTÓRIAS NACIONAIS. VOCÊ TEM ALGUM DESSES GÊNEROS COMO FAVORITO?
L: Tenho. Quando me apaixonei por teatro musical, meu sonho sempre foi estar nas grandes produções. Óbvio, todos tem o desejo pelo “luxo” de ser reconhecido, receber aplausos de mil pessoas, e acho que sempre tive esse sonho. Mas aí a maturidade chega, e a gente percebe o que satisfaz a gente de verdade. Hoje em dia, que estou muito mais maduro, pra mim o que funciona é um teatro musical que vai a partir da pesquisa. Que é sobre fazer musical genuinamente brasileiro, sem precisar apelar pelos clichês como plumas, teatro de revista, só samba. E a gente está em 2020, num mundo globalizado, e falar de teatro brasileiro é poder falar de muita coisa. A Barca faz isso muito bem, o Núcleo Experimental faz espetáculos com temas muito pertinentes, e é esse teatro que eu busco, que acredito que precisa ser feito. O que eu acho bacana da pesquisa é isso, a possibilidade de criar um contéudo que fale diretamente com a gente, mas também de pesquisar as formas possíveis de fazer musical.

Porque se não a gente engessa, o teatro musical norte-americano, os grandes clássicos, a Disney, são uma forma engessada que funciona, vende, e continua fazendo sucesso. E é lindo, maravilhoso, paga bem, mas não é só isso que a gente precisa desenvolver.

J: E VOCÊ CONSOME BASTANTE TEATRO MUSICAL HOJE?
L: Sim, precisa né, pra ver o que está acontecendo, como estão fazendo. Esse teatro musical nesse molde importado é muito caro, até pra quem paga meia, então é um pouco menos acessível, não dá pra ir todo mês.

E isso eu acho uma grande tristeza. Esse teatro que é feito com patrocínio, dinheiro público, mas que muitas vezes você tem que aguardar uma sessão popular numa quarta-feira a tarde, e que o ingresso é 50 reais. Aí você pensa: sessão popular pra quem?

Mas tenho ido sim, o teatro de grupo de São Paulo tem trabalhado com música de uma forma muito bacana, e por ter um apelo popular, ele percebeu o que volta mais na origem dessa junção de teatro e musica, de entender que música é popular, que atrai as pessoas. E tem feito isso muito bem.

Tem uma companhia que eu amo, a Cia. do Tijolo, que faz trabalhos excepcionais, e que também não se fala que é teatro musical, mas que é ao meu ver. A Cia do Osso também, que fez “Canto Para Rinocerontes e Homens” juntando música e teatro de uma forma muito bacana.

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Foto do espetáculo ‘O príncipe desencantado’ (2017)

J: E VOCÊ ACHA QUE É UM MERCADO FECHADO, DIFÍCIL DE ENTRAR PARA QUEM ESTÁ COMEÇANDO NA CARREIRA?
L: Acho. Principalmente o mercado mais ‘mainstream”, broadway, essas grandes produções importadas. É um mercado difícil, porque ele limita o lugar de quem pode fazer, já que pra fazer você precisa saber: cantar, dançar e interpretar pelo menos. Ou seja, pra você cantar bem, você precisa ter uma formação em canto, e uma formação em teatro, ou nas três, e não é barato.

Sendo muito sincero, estou 10 anos pesquisando nessa área e conheço pouquíssimas pessoas de baixa renda que fazem teatro musical. Porque é caro estudar essas coisas todas. Esse eu acho que é o primeiro limitador.

O segundo é a questão do que vai se chamar de “perfil”, physic. É limitador porque as produtoras desses projetos importados querem trabalhar com atores que pareçam os originais, europeus e americanos, e a gente está no Brasil. Teve uma produção de um espetáculo norte-americano sobre latinos, que você conta nos dedos as pessoas com perfil latino no elenco. Colocaram uma cota de negros pra falar que tem, mas os protagonistas brancos perfil europeu. Eu já fiz audição que eu fui considerado “moreno” demais, segundo a visão do diretor, que queria atores com perfil europeu.

Então tem esses limitadores de físico, de classe social, poder aquisitivo da pessoa pra estudar. E acho que é um mercado fechado, por mais que se abram audições, ainda acho que os diretores, produtores, têm preferência por trabalhar com pessoas que já trabalham a muito tempo.

Claro, se você é bom, se você estudou, se dedicou, teve a oportunidade de fazer isso, você consegue buscar um lugar ali. E vai engatinhando, começa no coro, aí vai buscando protagonistas, e por aí vai. Mas as pessoas que dizem que “há lugar pra todo mundo” discordo, porque entra quase que numa idéia de meritocracia, e discordo porque acho importante sempre pesar todos os lados possíveis.

J: E VOCÊ FALOU DAS AUDIÇÕES, ACREDITO QUE SEJA UMA DAS ÁREAS DO TEATRO QUE OS ATORES MAIS LIDAM COM ESSA QUESTÃO, TESTES, AUDIÇÕES. EXISTE ALGUMA FÓRMULA, DICA, CAMINHO QUE VOCÊ INDICA PARA LIDAR COM ELAS?
L: Realmente é uma das poucas áreas que ainda existe essa idéia de audições, além da publicidade, algumas coisas pra séries, produções mais fechadas. Mas no teatro musical é quase um hábito, a maior parte das produtoras abrem audição, que envia seu currículo, foto e vídeo cantando.

Então a primeira coisa pra você fazer uma boa audição é conseguir ser chamado pra audição. Ter um bom material, uma foto legal, um vídeo cantando bem, currículo que mostre suas habilidades, e mesmo que não tenha muita experiência, os trabalhos que fez nas escolas, os professores com quem estudou.

E para o momento da audição, parece meio clichê, mas precisa estar tranquilo. Precisa entender que não depende tudo de você. Quando você chega pra fazer uma audição, tem que dar o seu melhor, mas a gente nunca sabe o que a banca está querendo. As vezes você mandou muito bem na audição, cantou super bem, atuou bem, mas recebu um não.

A primeira questão pra se manter tranquilo é entender que você não sabe o que a banca quer. Metade do caminho é você e seus estudos, a outra metade é o que estão querendo pro espetáculo.

E acho que é isso, estar sempre o mais preparado possível, e a partir daí fazer o máximo de audições que você puder, porque é um treino. Se manter bem, se comportar de uma maneira profissional, e quanto mais você faz, mais tranquilo você fica, e entende que é uma entrevista de emprego como qualquer outra de qualquer área.

J: E VOCÊ FALOU SOBRE ESTAR PREPARADO, VOCÊ ACREDITA QUE QUANTO MAIS HABILIDADES O ATOR DE TEATRO MUSICAL TIVER: INSTRUMENTOS, ESTILOS DE DANÇA, ETC; MAIS CHANCES ELE TEM DE TRABALHAR NA ÁREA?
L: Sim e não, porque depende do que você quer fazer. Se você quer fazer teatro musical de qualquer jeito, aí vou dizer sim, você precisa saber cantar, dançar e minimamente interpretar, infelizmente é o que menos é pedido nas audições.

Existem musicais em que a exigência é tudo. Cats por exemplo, você tem que ser um grande bailarino, um grande cantor, e tem que minimamente interpretar. Se você quer fazer coro, de qualquer musical, você precisa saber se movimentar, precisa saber dançar, e cantar. Aí suas múltiplas habilidades vão te ajudar.

Mas existem muitos musicais que não, que você não precisa dançar por exemplo. Geralmente, os protagonistas não precisam dançar incrivelmente. Os grandes protagonistas da broadway, eles estão em cena, começam a dançar, aí quando fica difícil ele saí, e depois ele volta no final.

Quando se chega no lugar do protagonista, dançar se torna a menor das exigências. Cantar sempre. E atuação, deveria ser.

Então quanto mais habilidades você tem, mais chances tem de se encaixar. Mas eu sempre falo isso pros meus alunos: tá, você tem que se encaixar no que eles querem, mas você também tem que saber o que você quer fazer. Se você não quer ter experiência de dançar no coro, cria o seu caminho. Vai descobrindo o que você quer, e onde você quer estar.

Se não a gente fica sempre querendo se encaixar no padrão do outro, e nunca para pra pensar no que a gente quer. Esse foi o meu caminho, eu sempre tentei me encaixar, tentei até entender que eu não quero me encaixar em nada, quero criar o meu, fazer o meu caminho dentro disso. Faz muito mais sentido pra mim.

J: E PRA TERMINARMOS, O QUE VOCÊ ACREDITA SER ESSÊNCIAL PRA QUEM ESTÁ COMEÇANDO NO TEATRO MUSICAL?
L: Estudar, óbvio, tudo que for possível. Eu sempre digo, teatro musical é primeiro teatro, teatro é substantivo e musical é adjetivo, então precisa fazer teatro. E não estudar só isso, é preciso adquirir cultura, ler os grandes clássicos, os grandes autores, é entender que teatro fala da humanidade, entender a humanidade e o que precisa ser dito. A técnica é fundamental pra você ser um bom ator ou atriz, mas ser um bom artista é outra coisa, é o estudo do ser humano.

E ter uma cabeça boa, não é um lugar que vai te acolher e te dar um abraço e tudo bem. É um lugar que você vai receber muito mais ‘não’ do que ‘sim’, e isso é verdade. Buscar essa ‘cabeça boa’ onde você achar bom buscar, seja se encontrando consigo mesmo, terapia. E enfim, entender que os ‘nãos’ vão te fazer um caminho e que nem tudo está no seu controle.

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Foto da entrevista

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