TeE Entrevista: Sergio Guizé, Bianca Bin e Mário Bortolotto

Com a promessa de estrear presencial no próximo ano, o elenco e direção de O Homem que Matou Liberty Valance conversou com a gente sobre o processo de filmagem desse espetáculo e a experiência de dar vida ao texto de western americano escrito pelo dramaturgo Jethro Compton para um público brasileiro. Vem com a gente!

TeE: Por que a escolha desse texto para o momento atual ? Como que um texto de western (velho oeste americano) escrito por um dramaturgo inglês conversa a sociedade brasileira de hoje ?

Bianca Bin: Ele conversa muito com o Brasil de hoje. O texto caiu como uma luva pra esse momento em que temos esse desgoverno no poder Executivo, nesses tempos obscuros que a arte e a cultura enfrenta no Brasil, já que o texto fala de uma relação turbulenta entre a sociedade e a política. Nós já estávamos com esse texto a um tempo, e agora conseguimos realizá-lo de forma virtual. Se tudo der certo, ano que vem estreamos ele presencialmente no próprio Teatro Sérgio Cardoso.

Sergio Guizé: Eu, Mario Bortolotto e Carcarah estávamos fazendo a peça Oeste Verdadeiro (2017) e tentando comprar os direitos de “O homem que Matou Liberty Valence” já fazia um tempo. São temas muito relevantes que estavam presentes em 2017, e estão ainda mais pulsantes hoje.

É uma história simples de western mas que envolve muitos aspectos sociopolíticos, o que traz uma profundidade muito grande pro texto, que aborda muito bem temas como paixão, racismo estrutural, educação e protagonismo feminino. E o western desenha essa ambientação com personagens bem definidos que ajudam a contar a história a partir desses motes.

Créditos: Cri Jatobá

TeE: E como foi trabalhar com esse texto no online? Estar em cima dos palcos sem um público presente, distanciou a montagem da linguagem teatral?

Bianca: Por ser um híbrido do teatro com o cinema, as vezes surgiam dificuldades em relação à interpretação. Foi um grande desafio porque estamos no teatro, mas não estamos fazendo teatro. Ficamos com a sensação de estar gravando um longa metragem, onde em dois dias gravamos 50 páginas de texto. Foi graças ao olhar atento da direção do Mário Bortolotto que conseguimos nos adaptar a estar em um palco com lapela, corte e repetição de cena. Eu não tive tanta ansiedade porque eu sabia que seria filmada, mas não vejo a hora de estrear em um teatro com público presente.

Sérgio: O que difere esse trabalho de outras linguagens audiovisuais é o poder do palco. Ensaiamos o mês todo em uma sala de ensaio, mas o dia que subimos no palco, tivemos aquela sensação inexplicável que só é possível acessar quando se pisa em um teatro. Acredito que essa peça híbrida é na verdade uma prévia do que realmente vai ser ao vivo. O vídeo foi muito bem editado, tivemos um resultado muito além do que imaginávamos, já que a peça possui vários signos que conversam muito com o híbrido, mas com certeza, com um público presencial terá outra potência.

TeE: Os personagens, ambientados em 1890, possuem comportamentos e ideais ainda vistos na sociedade contemporânea?

Sergio: Sim, com certeza. Meu personagem tem uma ligação muito grande com o ideal de justiça. Ele tem uma linguagem que é completamente rebuscada e que precisa ser muito bem articulada. A trajetória do personagem na peça é algo que é muito presente ainda na sociedade atual: ele é um político eleito a partir de uma mentira, onde as pessoas acreditam que ele é quem trará a salvação e a solução dos problemas. Cenário que é muito presente nas nossas vidas hoje, então isso acaba trazendo um sentimento de familiaridade mesmo em um texto datado em 1890.

Bianca: Já a minha personagem Hallie tem muita força por ser uma sobrevivente de um lugar majoritariamente masculino e hostil. Ela é uma dona de bar analfabeta que se molda em uma roupagem rude e grosseira a partir do cenário que cresceu, mas ainda assim tem um olhar muito atento ao outro. Então ela é um grande símbolo da resistência feminina, o que pra mim é muito encantador de poder representar.

Créditos: Cri Jatobá

TeE: E como foi o processo de direção do espetáculo? Quais os maiores desafios de se trabalhar como ator e diretor desse texto?

Mário Bortolotto: Eu tenho uma certa resistência a fazer esses processos onlines, gosto mesmo é de fazer teatro presencial. Apesar disso, nós da equipe de direção e montagem tentamos fazer de uma forma que ficasse muito prazeroso para quem assiste, e que o processo fosse prazeroso para os atores também. Fico feliz com o retorno de quem tem assistido, pois temos recebido feedbacks muito positivos, e acredito que o híbrido hoje nos possibilitou levar esse texto para pessoas de vários lugares fora do eixo Rio – São Paulo. Então mesmo online, passando por um processo ao mesmo tempo angustiante e prazeroso, estou gratificado que conseguimos realizar um trabalho muito bem feito dentro dos limites do tempo e da linguagem.

É difícil pois não se tem o retorno imediato do público. E quando a gente faz no teatro ao vivo, se percebemos algum erro ou problema, tentamos corrigir no dia seguinte. Como está gravado, a obra de arte está “pronta” e não há como mudar ou melhorar nada. No teatro, o processo ainda está acontecendo mesmo enquanto estamos apresentando para o público. Cada dia é um público, cada público é diferente, e essa troca faz muita falta.

SINOPSE

Twotrees, 1890. Velho Oeste. O Saloon de Hallie recebe a visita inesperada do velho pistoleiro Bert Barricune. Ele carrega no lombo do seu cavalo a carcaça maltratada de Ransome Foster, que foi brutalmente espancado no deserto. Foster é um jovem educado de Nova Iorque. Ele parte rumo ao oeste selvagem em busca de uma nova vida, mas é recebido pela dura realidade das planícies empoeiradas. Ao ser salvo por Hallie Jackson, Twotrees se torna seu lar, onde os fora-da-lei imperam e as armas decidem o destino de muitos. Foster encontra propósitos na figura de Hallie, mas será suficiente para enfrentar a gangue de Valance?

SERVIÇO

O HOMEM QUE MATOU LIBERTY VALANCE, DE JETHRO COMPTON E DIREÇÃO DE MÁRIO BORTOLOTTO
Teatro Sérgio Cardoso Digital

Temporada: 2 a 19 de dezembro

De quinta a domingo*, às 21h

Ingressos: Grátis, devem ser retirados antecipadamente pelo link https://site.bileto.sympla.com.br/teatrosergiocardoso/

Duração: 100 minutos

Gênero: Drama

Classificação etária: 16 anos

Acessibilidade: legendagem descritiva

*Há um bate-papo online com o elenco todos os domingos após a sessão

**Estreia do Web-doc (processo da montagem) dia 19/12.

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