O teatro a favor da saúde mental

Por Nathalia Affel

“A arte é imanente a todos os homens e não apenas a alguns eleitos; a arte não se vende como não se vende o respirar, o pensar e o amor. A arte não é mercadoria. Mas para a burguesia, tudo é mercadoria: o homem é uma mercadoria. E se o homem é uma mercadoria, será igualmente mercadoria tudo o que o homem produzir. Todo o sistema burguês se prostitui, o amor e a arte. O homem é a suprema prostituta burguesa”.
BOAL, Augusto.

Navio dos loucos, Hieronymus Bosch, ~1495

No início da Idade Média, a loucura era encarada como fato cotidiano ou dadiva divina, era inclusive retratada em teatros por meio da comédia, que possibilitava uma reflexão da condição sem juízo moral. Com o tempo e com a drástica segregação social por conta da cultura, crença e claro, dinheiro, os chamados doentes mentais passam a receber um tratamento não mais humanizado. Agora considerados “possuídos por uma força maligna”, sofriam um processo de tortura e privação afim de expulsarem o comportamento não socialmente esperado e aceito. Não é à toa que essa época foi conhecida como Idade das Trevas. A partir de então, tudo o que não contribui para o movimento de produção, comércio e consumo é retirado, ou nesse caso, encarcerado.

Essa concepção só vai sofrer algum tipo de mudança depois da Revolução Francesa, quando a preocupação em readaptar os excluídos da sociedade vira uma questão científica, de início médica, e sai da posição simbólica e mitológica em que foi estruturada. A loucura passa a ser então revista e questionada, assim como seus devidos tratamentos punitivos. Hoje, podemos refletir e debater a respeito do histórico violento e marcado pelo isolamento e maus tratos que os hospitais psiquiátricos submetiam seus pacientes, inserindo a Reforma Psiquiátrica, que tem como um de seus objetivos a humanização dos tratamentos, levando em consideração a pluralidade de meios pelos quais se pode alcançar um resultado saudável. Essas novas possibilidades deram abertura para que as artes voltassem a ser inseridas nesses ambientes, agora, como instrumentos terapêuticos valiosos.

“Todos os seres humanos são atores, porque agem e espectadores, porque observam. Somos todos expect-atores” (BOAL)

Compreender o sofrimento psíquico das pessoas portadoras de transtornos mentais é mais do que urgente. Todo indivíduo é passível de sofrimento e todos enfrentamos dificuldades (não apenas de ordem psíquica) em graus diferentes, mas nem toda alteração comportamental deve ser internada. Portanto, os centros de Atenção Psicossocial existem para servir de espaço de acolhimento e atendimento à indivíduos com intenso sofrimento psíquico e uma qualidade de vida afetada. Ali, é proposto vários tipos de atividades terapêuticas, incluindo as ocupacionais, a fim de oferecer um substitutivo à internação a priori.

Se tratar é estar em atividade e teatro é ação, então temos um match. Brecht dizia que “ninguém é o que é porque sim! É necessário buscar as causas que fazem com que cada um seja o que é”. Acreditar que somos seres sociais ativos e reflexivos com possibilidades e planejamentos, independente de transtornos mentais ou síndromes sociais, é o primeiro passo para entender uma psicoeducação mais inclusiva e humanizadora. O jogo teatral oferece inúmeros meios de autoconhecimento e expressão, além de dar a oportunidade ao indivíduo de agir em um ambiente controlado sem juízo de valor. Por meio de uma atividade teatral é possível enxergar conteúdos latentes, complexos ativados e elementos recalcados. Assim como o reestabelecimento de papéis e reflexão a respeito do normal.

“A linguagem teatral é a linguagem por excelência”, dizia Boal. Então, vale ressaltar que, quando a vida é posta em cena, há a possibilidade de observação de comportamentos refletidos. Uma vez em cena, sem a pressão sufocante da vida real, o indivíduo tem a oportunidade de encarar consequências e resultados, assim como rever atitudes e refletir acerca das próprias reações. Portanto, quando falamos em teatro como instrumento terapêutico, propomos uma construção mútua, contínua, um espaço de ressignificação e conhecimento.

“Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que inversamente, um sofrimento corporal consegue afetar a alma, pois alma e corpo não são separados, mas animados por uma mesma vida. Assim sendo, é rara a doença do corpo, ainda que não seja de origem psíquica, que não tenha implicações na alma”

C. G. Jung

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