TeE Entrevista: Larissa Janotti e Laura La Padula (Cia zero8)

No TeE Entrevista de hoje, conversamos com as atrizes Larissa Janotti e Laura La Padula da Cia Zero8 sobre o projeto do espetáculo “Dançamos Juntos no Carnaval das Gentes”, que trouxe a proposta de levar a história do modernismo brasileiro para a calçada do Teatro Municipal de São Paulo ao som de marchinhas de carnaval. Vem com a gente!

Teatro Em Escala: O espetáculo de vocês parte da vida e obra da Anita Malfatti, com a exploração de músicas em tom carnavalesco para pontuar os principais acontecimentos do movimento modernista brasileiro. Como foi o processo de preparação desse espetáculo para vocês atrizes? O que a escolha das marchinhas de carnaval sublinha na dramaturgia?

Laura La Padula: O tom carnavalesco, na verdade, é o caminho que encontramos para trazer de volta a ambientação do carnaval de 1919, que aconteceu logo após a pandemia da gripe espanhola. Foi uma das primeiras manifestações populares que buscou trazer de volta o sentimento de alegria e celebração depois de um longo período de tragédias, algo que nós também buscamos atingir hoje com nosso espetáculo, tendo em vista que também estamos saindo de uma pandemia agora em 2022. É uma celebração tanto para o público, quanto para nós artistas, que ficamos trabalhando isolados em nossas casas por quase dois anos.

Larissa Janotti: O carnaval é um grande encontro de pessoas com a cidade, então relacionamos essa cinesia do encontro com os modernistas de 100 anos atrás, que buscaram trazer a arte e a cultura para o urbano. Defendemos uma ideia que, para mais do que uma expressão artística individual, o carnaval é um ato político, por representar uma busca da brasilidade genuína a partir do encontro com o outro.

Créditos: Guilherme Neves

Laura La Padula: Além disso, a peça ocupa a rua. Esse ato tem como objetivo tirar a arte de dentro do Municipal, que geralmente é frequentado por classes sociais específicas, e levá-la ao encontro direto com qualquer transeunte que queira assistir à uma peça de teatro naquele momento.

TeE: Vocês tiveram quanto tempo de ensaio?

Larissa Janotti: Na verdade, nós fizemos um longo processo de pesquisa e estudo antes de começar os ensaios na prática. Em 2021, ficamos o ano todo nos debruçando sobre textos, documentários, artigos, entre outros materiais para levantar e conceber a dramaturgia da peça. E em janeiro, começamos os ensaios presenciais já sedentos para colocar em prática todo aquele conteúdo que foi pesquisado durante um ano.

As propostas cênicas foram surgindo de forma muito orgânica em nós, pois estávamos com aquele conteúdo transbordando dessa imersão. Então para nós enquanto atrizes, o processo de construção e interpretação dos personagens e do texto partiu de um trabalho de criação coletiva, onde todos nós do elenco participamos ativamente de todo o processo de criação.

Laura La Padula: Foi um processo de pesquisa muito enriquecedor, principalmente sobre a Anita Malfatti. Ela é uma das principais responsáveis pela semana de arte moderna de 1922, e uma das artistas menos mencionadas quando se fala sobre o modernismo. Ela foi a precursora desse movimento em 1917, a partir da pintura revolucionária de “O Homem Amarelo”. Então uma mulher deficiente que impulsionou um dos momentos mais importantes da arte no Brasil foi a principal inspiração para esse trabalho.

“O Homem Amarelo” – Anita Malfatti

Larissa Janotti: Nossa dramaturgia foi construída através de workshops: nós levantávamos uma pergunta e a respondíamos em cena. O Lucas D’Alessandro e a Elenice Zerneri assinam nossa dramaturgia, pois eles organizaram e estruturaram em forma de texto o resultado dessas propostas cênicas.

TeE: Por que a escolha de levar esse espetáculo para a rua ? Esse contato direto com o público possibilita uma maior aproximação com a história que está sendo contada? Por quê ?

Laura La Padula: Levar esse texto para a rua possibilita uma democratização do acesso. Nós geralmente terminamos a peça com o dobro de pessoas que começaram a assistir, inclusive muitos moradores de rua da região. E essa troca é muito importante para nós, porque já recebemos comentários de pessoas dizendo que se interessaram pelo tema e foram pesquisar mais; de pessoas que não conheciam nada sobre arte moderna e agora sabem da importância para a cidade… Essa troca é o que mais alimenta nosso projeto.

Além de levantar o debate: a semana de arte moderna foi feita para quem? Nós fazemos teatro para quem? Quem são as pessoas que consomem teatro hoje? Será que, 100 anos depois, nós conseguimos realmente deixar a arte mais inclusiva?

TeE: Hoje, fala-se muito sobre como a semana de arte de 22 e o movimento modernista foram realizados por artistas majoritariamente de elite, influenciados por moldes europeus apesar de terem um discurso de ‘busca pela brasilidade’. O espetáculo de vocês reforça esse debate com o pós-moderno, ou há uma busca de um equilíbrio entre a crítica e a celebração? Quais brasilidades vocês escolhem retratar na peça ?

Laura La Padula: A gente celebra “a nosso modo”, como dizemos na peça. O modernismo foi um marco na história do nosso país, eles trouxeram um olhar diferente ao fazer artístico sim, mas não dá pra deixar de ter um olhar crítico sobre quem eram esses artistas e seus contextos socioculturais. Nossa crítica se dá através de uma poesia musicada, que busca esse equilíbrio entre a crítica e o tom de celebração.

Larissa Janotti: A gente propõe uma crítica fora da estrutura acadêmica do que é ser crítico. Usamos de uma estética mais próxima do teatro de revista, de um teatro mais popular, musicado, para justamente trazer a sensação de encantamento junto com o olhar sensível e analítico do que estamos mostrando ao público, fugindo de um discurso palestrante.

Laura La Padula: Foi importante esse debate para nós enquanto artistas começarmos a questionar que lugar é esse que ocupamos dentro da classe artística hoje. Não somos parte da elite, pois nenhum de nós é latifundiário, mas estamos em uma situação de conforto que nos permite fazer teatro mesmo não sendo nossa principal fonte de renda. Então quando fomos debater o que é a busca da brasilidade, foi necessário entender onde nos encaixamos dentro dessa engrenagem social que a população de São Paulo se encontra, para justamente conseguirmos nos conectar com o público amplo que o teatro de rua atinge.

Créditos: Guilherme Neves

FICHA TÉCNICA
Direção: Paula Klein Flecha Dourada. Dramaturgia: Elenice Zerneri e Lucas D’Alessandro. Direção musical: Lucas D’Alessandro. Produção: Cia. Zero8 de Teatro. Elenco: Bárbara Sgarbi, Elenice Zerneri, Larissa Janotti, Laura La Padula e Lucas D’Alessandro. Assessoria de Imprensa: Renato Fernandes.

SERVIÇO:
Dançamos Juntos no Carnaval das Gentes
Calçada do Theatro Municipal (Praça Ramos de Azevedo, s/n)
Até 29 de maio, sábados e domingos, às 15h.
Grátis.

TeE – Gabrielle Risso e John Marques

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