TeE Entrevista: Fernanda Maia

Olá leitores! O TeE Entrevista de hoje é com a maravilhosa Fernanda Maia, que conversou com a gente sobre sua trajetória no teatro, os últimos espetáculos que trabalhou e sua perspectiva sobre a relação do público com o teatro musical. Vem com a gente!

TeE: Fernanda, você é dramaturga, compositora, versionista, atriz e diretora musical. Como você começou a trabalhar com o teatro musical? Foi um sonho seu desde criança ?

Fernanda: Desde criança eu gosto muito de musical. Sou do interior, então eu não tinha acesso aos musicais feitos presencialmente, meu acesso era através da televisão. Eu estudo música desde os sete anos de idade, minha mãe era uma educadora que achava que a música faz parte da formação do ser humano, que tem uma função muito importante no desenvolvimento da inteligência. Comecei a cantar no Conservatório de Tatuí, um escola muito muito forte, e na época da faculdade eu fiz letras, quando entrei em contato com a questão da literatura dramatúrgica de vez, virei uma leitora voraz, lia tudo que caia na minha mão. Então essa proximidade com música e literatura eu tenho desde a infância.

Eu fui ao teatro pela primeira vez eu acredito que tinha por volta de 11 anos e foi uma coisa curiosa: eu não vi uma peça infantil, fui ver Antígona, uma tragédia grega. Pra quem não conhece, a peça começa com a personagem Antígona dizendo que quer enterrar o irmão que foi morto e o Estado não permite. A encenação que vi tinha sessão de tortura, então a primeira cena de teatro presencial que eu vi na vida foi um homem nu apanhando no pau de arara.

Depois de anos, eu conheci o Zé Henrique, com quem eu tenho uma parceria já de muito tempo. Na época, ele estava montando uma peça e me chamou pra fazer a trilha sonora. Era Macbeth do Shakespeare, eu fui da trilha pro palco, e do palco eu vim pra São Paulo começar um grupo de teatro amador. Estudei com o grupo TAPA, ficamos estudando aqui e sempre fazendo montagens das nossas produções amadoras. Depois de conhecer muitas pessoas, começamos a fazer produções profissionais, e como a minha formação musical é muito forte e o Zé também tem um gosto muito refinado e sensível pra música, essa junção de teatro e música teve papel muito preponderante nas coisas que a gente fazia, então esse interesse por musical foi só aumentando.

Nossa criação de teatro musical sempre foi interessada em projetos que a gente pudesse ter mais autonomia criativa. Por volta dos anos 2000 teve o boom dos musicais de franquia, que tiveram papel muito forte na formalização da profissão, mas a gente foi fazendo sempre os nossos do nosso jeito. As temáticas autorais, mesmo que muito pequenas às vezes, mas em lugares onde a gente tivesse autonomia criativa sempre nos atraiu mais. Acabou que a gente entra no musicais de grande porte, como Sweeney Todd, por uma outra porta, pela porta da autonomia criativa. A gente nunca se interessou por fazer um musical que não tivéssemos uma uma liberdade pra poder criar, pensar e atravessar a nossa compreensão e principalmente a compreensão do nosso tempo.

O legal do musical, e que muita gente não sabe, é que a história do teatro musical brasileiro está intimamente ligada com o teatro musical. Teatro musical brasileiro está presente desde que temos o primeiro edifício teatral no Brasil no Rio de Janeiro: vinham pro Brasil muitas companhias de opereta, que inspiravam as produções das primeiras companhias nacionais. Então a nossa tradição é muito rica em teatro musical e nós hoje bebemos muito dessa tradição.

TeE: Quando se fala de teatro musical, muita gente associa somente à grandes produções importadas da broadway ou de west end, e o núcleo experimental tem uma pesquisa que justamente busca quebrar essa ideia e refletir sobre temáticas brasileiras. Você acha que o público geral de musicais também busca por esses esses espetáculos, ou é ainda um processo de desconstrução que enfrentamos hoje para atrair espectadores ?

Tivemos muitas fases desde esse primeiro boom do teatro musical, que foram se abrindo mas a gente não perdeu as anteriores. Tivemos a fase dos musicais de franquia, em que muita gente associou fazer musical a somente fazer dentro de um padrão Broadway, de emissão e estéticas da Broadway, que precisa custar 8 milhões e por aí vai.

A partir daí, tanto o público quanto a classe artística começaram a ter uma outra demanda. Esse dinheiro que era investindo em musicais americanos de franquia precisou começar a ser investido em outros tipos de produções. Os musicais biográficos também tiveram seu boom, justamente por um desejo do público de que as produções, de que esse gênero do qual as pessoas gostam tanto, falasse de temas que lhes dissessem respeito. Muito legal assistir espetáculos como Miss Saigon, mas a gente como brasileiro não tem essa ligação quase que de DNA como os Estados Unidos têm com a guerra do Vietnã. Nós temos outros temas, que são pra gente ancestrais, que nos atravessam de maneiras muito mais intensas do que outros temas americanos. Não que não podemos gostar ou assistir coisas que não falem só das nossas realidades ou demandas, a gente precisa entender o mundo, mas também não só do outro lado. Precisamos falar de nós mesmos, do que a gente sente.

Em 2015, tivemos uma experiência muito interessante quando fizemos Urinol – O musical. Era um musical off-Broadway que falava sobre a crise hídrica. E em 2015, tivemos uma crise muito severa aqui em São Paulo, onde acabava água em tudo quanto é lugar. E no nosso teatro acabava durante a apresentação, então as pessoas saíam no intervalo para ir ao banheiro e não tinha água, o que muita gente achou que era proposital. Essa peça acendeu o olhar das pessoas para a ideia de que musical não precisava custar milhões para ser feito, pois nós o levantamos com apenas 300 mil. É possível fazer produções menores, em espaços pequenos, que aliem entretenimento com uma crítica social, debates e construção de conhecimento. E partir disso, tivemos outro boom: de espetáculos musicais de pequeno e médio porte, fora de um esquema industrial mas dentro de um esquema artesanal, com autonomia em todas as fases da criação artística.

As pessoas, tanto público quanto classe artística, foram descobrindo as enormes possibilidades de se fazer teatro musical. E para quem é fã de musical, é muito interessante assistir em teatros menores porque há uma proximidade com o que se está vendo em cena muito grande sem precisar pagar 300 reais. Às vezes, o público das grandes produções de teatro musical não tem acesso ou informação sobre os espetáculos menores, que é um sintoma da sociedade neoliberal que a gente vive, uma sociedade construída em cima da ideia de monopólios, então há sim a necessidade de se batalhar por um público maior e furar as bolhas dos monopólios.

A canção tem um poder emocional muito grande, percebidos para além do racional. E eu sou apaixonada pela estrutura do musical, porque é necessário ter a junção de muitos elementos, todos muito bem feitos e afinados para dar certo. A construção do musical me encanta muito, e fico muito feliz de ver esse mercado crescendo cada vez mais.

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