Chapetuba Futebol Clube

Primeira peça de Oduvaldo Vianna Filho, com encenação de Augusto Boal, estreou em Março de 1959, após a tão comentada temporada de Eles Não Usam Black-Tie no Teatro de Arena de São Paulo.
Vinda do Seminário de Dramaturgia, “Chapetuba Futebol Clube” aprofunda as características de realismo psicológico buscado pelo grupo no período.

O foco do texto se concentra em um time de futebol de uma pequena cidade fictícia.
Seus jogadores estão numa pequena pensão onde ficam concentrados antes dos jogos e convivendo juntos. Chapetuba faz parte da segunda divisão de profissionais e anseia subir para a primeira divisão. Às vésperas da partida decisiva, onde jogará com o adversário Saboeiro, surgem indícios de negociação e manipulação do resultado e um verdadeiro turbilhão de acontecimentos.
O goleiro titular está contundido e seu reserva é inexperiente; Um jornalista penetra na pensão onde os jogadores se concentram, aguçando corrupção para favorecer o resultado para Saboeiro;  o craque da equipe deseja reviver seus dias de glória em um grande clube; a mulher de um dos zagueiros está prestes a parir; A rádio local, para manter-se no ar, tem o apoio financeiro do pai de um dos jogadores, desde que na transmissão dos jogos evidencie seu filho como o melhor jogador de Chapetuba e por aí vai.
Em meio a esse turbilhão de sentimentos e interesses, o sonho coletivo parece desmanchar-se em função de benefícios individuais, mostrando diferenças de caráter diante de certas circunstâncias. De um lado, um jogador extremamente sonhador, ingênuo, que acredita na bondade do ser humano acima de qualquer suspeita, que acredita na vitória, sem sombras de dúvida; de outro, um goleiro extremamente experiente e mais velho, endividado, cansado, que se vende no último momento fingindo mais uma contusão.

Chapetuba Futebol Clube , 1959
Registro fotográfico Hejo

Vianinha empregou os elementos comum ao drama, no que se referia a construção: texto com três atos, apresentava a motivação psicológica das personagens e desenvolvia o conflito na direção do ápice e a resolução leva ao desenlace final da história. O assunto abordado, o futebol, era representativo para época, já que além de ser uma paixão nacional, a seleção brasileira havia conquistado o título do campeonato mundial que aconteceu na Suécia no ano anterior.

O autor trata de assuntos de natureza social e coletiva: a vitória do time, também traria a cidade uma revitalização econômica, e nesse contexto entra a decisão em prol de um conjunto, ou do individuo, já que existia uma proposta de “compra” do resultado final, além de lidar com personagens cuja condição é a de explorados e desprovidos de liberdade para decidir o próprio destino.

Nesse contexto, entra a mesma discussão de Black-tie: a natureza ética e firmeza de caráter de Tião (em Black-tie) e Maranhão (em Chapetuba). Essas questões retratadas nas peças escritas dentro do Teatro de Arena, abrem caminho para assuntos que viriam a ser manifestados na dramaturgia dos anos 1960/1970: a representação da classe trabalhadora e as questões sociais que atingiam as grandes massas na época.

Com uma linguagem simples, que dialoga com costumes de um tempo e de um povo, Vianinha usa do futebol como fonte para discussões maiores. A direção de Augusto Boal é ágil, apelando para o realismo na ambientação e no desenho das personagens, aprofundando suas pesquisas em torno de um modo brasileiro de interpretação.

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