O Teatro de Arena

Com inspiração na estrutura norte-americana de teatro sem proscênio (com área de encenação circular, central e circundada pelos assentos destinados ao público), nasce em 1953, o Teatro de Arena de São Paulo.
Foi José Renato Pécora, recém-formado pela Escola de Arte dramática (EAD), quem teve a iniciativa da criação do Teatro de Arena, inicialmente inaugurado em um espaço cedido pelo Museu de Arte Moderna, onde funcionou até 1954, quando migrou para seu domicílio definitivo: Rua Theodoro Baima 94, Consolação – SP.
Para a estreia do grupo, José Renato Pécora escolheu um texto de Tenessee Wiliams já conhecido por ele: O Demorado Adeus. O resultado mostrou que o grupo ainda se mantinha um tanto preso aos padrões do palco Italiano, mas também o seu baixo custo, já que a montagem custou 10% do total exigido por Lembrança de Berta, na época encenada pelo TBC.

No inicio, antes de ter seu prédio, o grupo teve uma fase de apresentações em outros locais: fábricas, clubes e escolas, e em locais situados fora do circuito convencionais de espetáculos. Isso ampliava as faixas de público atingidas pelo grupo, também auxiliando a campanha por fundos para a aquisição de uma sede própria.

A partir de 1955, alguns artistas do TPE (teatro Paulista do Estudante) ingressaram no Arena. Por isso começariam a passar por transformações que imprimiriam ao seu trabalho o caráter político e uma radical modificação dos pensamentos e linha de trabalho que passariam a caracterizar o grupo.
pouco tempo depois os artistas do TPE firmaram um acordo com o Arena: em troca de espaço para ensaiar e apresenta trabalhos no teatro de Segundas-feiras, eles cederiam seus amadores para figurações. Isso levou alguns do membros mais importante do TPE a se profissionalizarem no teatro. Com o ingresso desses atores vindos da militância estudantil ao Arena, o grupo passaria a formar sua politização.
Mas nada seria tão rápido, era necessário que surgissem novos trabalhos dramaturgicos, e para isso era necessário fomentá-los.

José Renato sentia o peso da carga de trabalho, ele era responsável não só pela direção dos espetáculos, mas também pelas questões administrativas, além de seus trabalhos pessoais na Tv Tupi, convidou, por indicação de Sábato Magaldi, Augusto Boal para se juntar ao Arena.
Já com algumas peças dirigidas por Boal, o Arena passa por certa dificuldade financeira e a solução encontrada foi encenar textos de autores da casa começando a nova tentativa com Marido Magro, Mulher chata, de Augusto Boal, seguido por Eles Não Usam Black-tie de Gianfrancesco Guarnieri.
A peça teve uma recepção muito boa pelo público e se manteve em cartaz por 10 meses, tempo muito longo para o habitual da época, o que trouxe ao Arena uma suposta “luz no fim do túnel”.

Como o texto de Guarnieri tratava do proletariado e toda sua luta social construída através da óptica de quem a vive, foi muito bem aceita pelo público, já que o ano de 1957 foi marcado por greves e mobilizações trabalhistas em São Paulo. Isso fez com que decidissem intensificar e fomentar a criação entre seus participantes, dando assim início ao Seminário de Dramaturgia – uma proposta de leitura e discussão de peças escritas por membros do grupo.
Escolhida em 1959 para suceder Eles Não Usam Black-tie, Chapetuba Futebol Clube, de Vianinha foi o primeiro fruto do Seminário de Dramaturgia e também falava de problemas sociais da população.
Assim o Arena define sua linha de trabalho.

Nelson Xavier, Flávio Migliaccio e Milton Gonçalves na peça ‘Chapetuba Futebol Clube’, do Teatro de Arena. Foto: Hejo. Cedoc-Funarte

No início da década de 1960, José Renato, que tinha dirigido as primeiras produções, deixou o Arena para dirigir o Teatro Nacional de Comédia no Rio de Janeiro, deixando Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, à frente do grupo no momento do golpe militar.
Com as peças sendo censuradas, eles precisavam de uma saída para enfrentar a censura, então veio a fase dos musicais: Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes, de Guarnieri e Boal.
Em 1971, Boal é detido e parte para o exílio. Gianfrancesco Guarnieri já havia se desligado do grupo, que acabou em 1972, o espaço é comprado pelo extinto SNT – Serviço Nacional de Teatro, no ano de 1977 e a partir dos anos 1990 passa a se chamar Teatro Experimental Eugênio Kusnet,

Montagens:

  • 1953 Esta Noite é Nossa, de Stafford Dickens (estreia da companhia nos salões do MAM – Museu de Arte Moderna). Integram a companhia: José Renato, Sérgio Britto, Henrique Becker, Geraldo Mateus, Renata Blaunstein e Monah Delacy.
  • 1953-54 entram em repertório: O Demorado Adeus, de Tenessee WiliamsUma Mulher e Três Palhaços, de Marcel Achard; Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena.
  • 1956 Ratos e Homens, de John Steinbeck. A montagem sob a direção de Augusto Boal conta com novos talentos vindos do Teatro do Estudante. Entre eles, além de Guarnieri e Vianninha, Flávio Migliaccio, Riva Nimitz e Milton Gonçalves.
  • 1957 Juno e o Pavão, de Sean O’Casey.
  • 1958 Eles Não Usam Black-Tie, de Guarnieri, sob direção de José Renato.
  • 1959 Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho, direção de Augusto Boal.
  • 1959 Gente Como a Gente, de Roberto Freire (psiquiatra), direção de Augusto Boal.
  • 1960 Fogo Frio’, de Benedito Ruy Barbosa, direção de Augusto Boal.
  • 1960 Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, direção de José Renato.
  • 1961 O Testamento do Cangaceiro, de Chico de Assis, direção de Augusto Boal.
  • 1962 Os Fuzis da Senhora Carrar, de Bertolt Brecht, direção de José Renato
  • 1962 A Mandrágora, de Maquiavel, direção de Augusto Boal.
  • 1964 O Tartufo, de Molière.
  • 1965 Arena Conta Zumbi, de Boal e Guarnieri, com música de Edu Lobo.
  • 1967-68 Arena Conta Tiradentes, também de Boal e Guarnieri
  • 1968 Primeira Feira Paulista de Opinião, evento organizado por Augusto Boal no Teatro Ruth Escobar.
  • 1968 McBird, de Bárbara Garson, direção de Boal, também no palco do Teatro Ruth Escobar.
  • 1968 Duas montagens malogradas no palco do Arena: O Círculo de Giz Caucasiano, de Bertolt Brecht e La Moschetta, de Angelo Beolco.
  • 1969 A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Bertolt Brecht.
  • 1970 O Arena sai em turnê internacional nos EUA, com a remontagem de Arena Conta Zumbi e estreia de Arena Conta Bolívar.
  • 1971 Teatro Jornal – 1ª Edição, de Augusto Boal.
  • 1971 Arena Conta Bolívar é proibida pela censura do Regime Militar, não sendo apresentado no Brasil.
  • 1972 Doce América, Latino América, criação coletiva, dirigida por Antônio Pedro.
  • 1972 Tambores da Noite, de Bertolt Brecht, direção Fernando Peixoto, Núcleo 2 do Teatro de Arena. Encenada no Teatro São Pedro.
  • 1972 A Semana – Esses Intrépidos Rapazes e Sua Maravilhosa Semana de Arte Moderna, de Carlos Queiroz Telles, Núcleo 2 do Teatro de Arena. Encenada no Teatro São Pedro.

Bibliografia:
História do teatro brasileiro vol 2 – João Roberto Faria
Memórias da ditadura: http://memoriasdaditadura.org.br/grupos/teatro-de-arena/
Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Teatro_de_Arena_(S%C3%A3o_Paulo)
Itaú Cultural: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399339/teatro-de-arena

Texto por: Gabrielle Risso (mas pode me chamar de Gabi)

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s