TeE Entrevista: Trupe Tropelia

Com a proposta de investigar a cultura e a história nacional no teatro, a Trupe Tropelia está em processo de criação do seu novo espetáculo “O Homem Imortal”, texto de Luís Alberto de Abreu com direção de Zé Gui Bueno e Carol Carreiro. Nós entrevistamos o diretor Zé Gui, a assistente de direção Thais Teles e a atriz e produtora Bia Sabiá, que você já pode conferir abaixo!

TeE: Conta pra gente um pouco sobre a trajetória do grupo, esse é o primeiro trabalho de vocês enquanto companhia?

Zé Gui Bueno: Há 6 anos atrás, eu estava saindo da escola de teatro e trabalhando com esse mesmo texto no Teatro do Incêndio no Bixiga (SP), e esse grupo de pessoas que estava trabalhando com assistência de direção e alguns como elenco acabou fazendo amizade, que se manteve ao longo dos anos. E dois anos atrás, eu estava conversando com o Luís Alberto de Abreu sobre como levantar essa peça, mas veio a pandemia e complicou um pouco o processo.

Agora estamos voltando com esse grupo de pessoas formado por nós três e Beatriz Miranda, Thiago Molfi, Luciana Fernandes, Matheus Campos, Rafael Americo e Guilherme Ciccotelli no elenco e vamos reconstruir esse texto de 6 anos atrás.

Atriz Bia Sabiá e Matheus Campos em processo de ensaio. Fonte @trupetropelia

TeE: Vocês estão trabalhando com o texto “o homem imortal” de Luís Alberto de Abreu em formato de teatro de rua. Por que a escolha de trabalhar esse texto na rua? O que no texto o chama para a rua?

Bia Sabiá: Eu vinha estudando e trabalhando a vontade de criar na rua há um bom tempo. Quando dividi com o Zé Gui minhas ideias, ele trouxe esse texto, que tem tudo a ver com a energia de teatro de rua. Por ser um texto que trabalha a ideia de circo-teatro, e além de trazer um tom de comédia farsesca muito consonante com o que a rua pede, o “Homem Imortal” nos possibilita trabalhar uma energia diferente do teatro convencional, uma troca diferente com o público. Na rua precisamos estar prontos para o imprevisto o tempo todo, o estado de jogo é muito mais urgente, e isso se reflete no nosso trabalho.

E esse espetáculo também será itinerante. Temos a proposta de viajar com esse texto até o Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, onde tem índices sociais baixos e foi uma grande fonte de escrita para o dramaturgo.

Zé Gui: O Luís Alberto de Abreu fez uma pesquisa muito extensa no Vale do Jequitinhonha, ouviu histórias, entendeu e trabalhou os regionalismos, construiu no texto vários arquétipos brasileiros a partir justamente da contação de histórias nas ruas, então há uma ligação forte com a rua não só com a estética, mas também com a temática e a forma com que o texto foi estruturado.

Thais Teles: É também muito interessante notar que a relação com o público pós pandemia também se alterou muito. Nós temos no espetáculo uma “kombi”, carinhosamente apelidada de Cacilda, que faz parte do nosso cenário coletivo e itinerante. Então ter a possibilidade do grupo entrar no Vale e em outros lugares, se locomover e apresentar um espetáculo a partir dessa interação na rua, traz uma perspectiva muito interessante de como a relação com o público pode se dar em um espaço comum a todos.

Bia Sabiá: E a rua te permite uma troca com o público que com certeza muda a partir do lugar que você apresenta. O artista que apresenta na rua precisa estar preparado para o inusitado, pois o trabalho se dá um espaço que é democratizado, gratuito e que conversa com os transeuntes de todas as classes sociais; há o estudante, a dona de casa, o morador de rua, o cachorro que entra em cena e etc. Todos ali, dividindo o mesmo espaço sem precisar se vestir de alguma maneira ou se portar de outra, pois simplesmente acontece. E é nesse lugar que queremos chegar.

Desfoque da Cacilda. Fonte @trupetropelia

TeE: Na apresentação do projeto, vocês falam sobre o que é a compreensão da “nação brasileira”. Como o grupo enxerga a construção e estruturação desse ideal de nação hoje? E como esse debate entra na proposta desse trabalho?

Zé Gui: Quando falamos desse “ideal” de nação, partimos de um pressuposto de uma sociedade igualitária, o que não corresponde com a realidade do nosso país. Uma das funções do teatro é justamente debater com o público essa questão: vivemos em uma nação desigual? Por que? O que seria ter uma nação mais igualitária? Nós brasileiros não temos um ideal bem formado do que seria a própria nação brasileira, e precisamos falar cada vez mais sobre isso no teatro.

Bia Sabiá: É justamente a ideia de desconstrução desse ideal que queremos trabalhar. Tem-se a ideia de uma globalização da população quando entramos nos debates sobre o que é nação, a qual não leva em consideração que vivemos em uma estrutura social que não é igualitária. Então esse ideal é utópico, e não sei se um dia chegaremos a viver em uma nação sem desigualdade social.

Thais Teles: Acredito que é muito forte a disputa sobre o que significa nação para os diferentes grupos sociais que temos no Brasil. Hoje, por exemplo, a bandeira brasileira está muito associada a um grupo específico que não representa a maioria dos brasileiros, então está muito difícil definir o que é a nação brasileira, quais grupos fazem parte e etc.

TeE: E o teatro brasileiro hoje, consegue levantar e debater essa questão de nação, agregando grupos heterogêneos na conversa ou ainda tem-se pouco espaço para diferentes falas?

Zé Gui: Quando vejo as premiações atuais, com os mesmos artistas sendo contemplados, os projetos que estão sendo financiados pelas leis de incentivo fiscal, eu entendo que não, principalmente do ponto de vista de um pequeno produtor.

Mas, ao mesmo tempo, há muitos grupos de resistência que entram no debate com a mesma força que nós. Que fazem questão de fazer parte da conversa mesmo sem serem convidados, e isso para o teatro brasileiro é muito rico.

Thais: Realmente, as vezes o foco de luz fica muito restrito a poucos grupos, mas há sim um movimento de resistência que mostra que o teatro é uma das linguagens artísticas mais democratizadas que existem.

Zé Gui: E é difícil essa questão, porque dentro do momento polarizado que estamos vivendo, quando essa discussão se cria, é muito fácil quem escuta colocar o que está escutando em caixinhas, como por exemplo, de arte panfletária, militante, etc., que são colocados dentro de uma conotação de algo menor, e isso limita as possibilidades do debate.

Mas, meu objetivo como diretor, é desenvolver um trabalho que dialogue com um público que não é necessariamente especializado. Usando da linguagem do teatro épico, nós estamos buscando que o público desenvolva uma empatia com aqueles personagens que estão assistindo, não sendo tomados pela situação, porque não é essa a função da linguagem, mas que seja possível pensar e analisar criticamente as ações dos personagens e, a partir daí, criar uma empatia com aquelas situações. O teatro épico tem também essa função de ganhar o público, de incluí-lo no debate, ainda mais trabalhando com a comédia e com a sátira, que têm uma adesão diferente com quem assiste.

Diretor Zé Gui Bueno em processo de criação. Fonte @trupetropelia

TeE: Sobre o processo de montagem de um espetáculo nesse momento da pandemia, quais os maiores desafios que estão enfrentando para levantar esse espetáculo?

Zé Gui: Estamos com esse projeto através do edital da lei Aldir Blanc, mas nós somos em 14 pessoas, então o fomento para todas as nossas necessidades é ainda o nosso maior desafio. Estamos com fome de fazer teatro, então tentamos agregar o máximo possível de pessoas para trabalhar, e subsidiar toda a produção é muito difícil.

Para mais informações sobre a Trupe Tropélia, como datas e locais de apresentação, acesse o Instagram da Trupe Tropelia aqui!

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