TeE entrevista: NATALIA GONSALES

Nossa próxima entrevistada do blog é a incrível atriz Natalia Gonsales, que bateu um papo com a gente sobre a peça ‘Fóssil’ e seus projetos recentes, e você já pode conferir a seguir:

Divulgação Natalia Gonsales

TeE: NATÁLIA, ANTES DE COMEÇAR A QUARENTENA VOCÊ ESTAVA EM QUAIS PROJETOS?

NATALIA: Estava com Fóssil, que tínhamos acabado de reestrear no Teatro Aliança Francesa, no dia 13 de março. Também estava ensaiando um filme, que começariam as gravações logo quando começou a quarentena. 

TeE: E AGORA DURANTE A QUARENTENA, VOCÊ CONSEGUIU DAR CONTINUIDADE A ESSES PROJETOS? 

NATALIA: Sim, estamos filmando agora. É um roteiro precioso, complexo e que exige muito estudo. Somos em 4 atores, o filme terá entre 3h30 e 4h de duração, então tem dias que gravamos por quase 12 horas. 

Quando deu a quarentena, o Guilherme de Almeida Prado, nosso diretor, propôs que fizéssemos ensaios online. Então aproveitamos para fazer um grande estudo de mesa, que foi fundamental pro trabalho e que não vejo a gente fazendo o filme sem. Agora estamos na prática das gravações, com todos os cuidados possíveis mas ainda morrendo de medo. Transformaram a gravação de 8 semanas em 4, pra diminuir o risco, além de fazermos teste do COVID a cada 4 dias. Eu não conheço a cara de muita gente da equipe por conta da máscara e dos óculos, e assumo que tenho uma certa dificuldade com esse cenário. 

Estamos aprendendo a como nos comportar sem causar risco à ninguém, ainda mais eu que sou super amorosa, afetuosa, quero abraçar todo mundo… não está sendo fácil não poder ver além dos olhos de quem trabalha com você. Por mais que os olhos digam muito, a gente sente falta do encontro.  

Divulgação Natalia Gonsales

TeE: SOBRE A PEÇA FÓSSIL, ELA RETRATA SOBRE A QUESTÃO DOS POVOS CURDOS E DA REVOLUÇÃO DE ROJAVA, NA SÍRIA. COMO FOI O PROCESSO DE PESQUISA DESSE TEXTO E APRESENTAR ESSA HISTÓRIA NOS PALCOS BRASILEIROS?

NATALIA: A idealização é minha e foi uma pesquisa de 3 anos, onde eu me apaixonei pela luta das mulheres curdas. Isso me transformou muito na vida, eu conheci muitas pessoas fora do meu meio. Eu troquei muito com jornalistas, fotógrafos de guerra, outro universo. Tive um olhar aprofundado para uma cultura que não é ocidentalizada, que é muito massacrada pelo Oriente Médio, que sofre com: preconceito verbal e religioso, disputas por terras e petróleo, desvalorização da cultura e oposições extremistas que são muito machistas, como por exemplo o Estado Islâmico, que é esse braço armado que faz atrocidades contra essa população. 

E o que mais me impressionou foi a luta das mulheres curdas, que têm um líder que está preso desde 1999 como terrorista. Ele não é terrorista, ele era líder do partido dos trabalhadores dele, e quando começa a luta por democracia, ele é quem desenvolve a política a favor do confederalismo democrático, dando prioridade ao tripé: ecologia, genealogia e a igualdade de gêneros. É uma estrutura política em que não se tem apenas um homem por vários anos no governo, mas sim uma divisão entre uma mulher e um homem, onde os dois vão governar.  

É uma maneira de se enxergar o mundo dando muita prioridade às gerações futuras, porque eles acreditam que não adianta lutar só pensando no aqui e agora, que é preciso defender quem garantirá o futuro. Então são mulheres que a partir dos 18 anos vão pra guerra junto com os homens, lutando contra o Estado Islâmico. 

Eles têm uma luta muito concreta pela democracia há mais ou menos 40 anos, a gente não chega nem perto do entendimento do que é realmente democracia. É inacreditável o quanto eles são evoluídos na maneira de pensar, na maneira de se preocupar com o próximo, esse laboratório curdo democrático. 

Divulgação Natália Gonsales

É inacreditável que ninguém conhece nada sobre os curdos. A nossa imprensa recebe e divulga muita coisa distorcida, então quando trouxemos esse texto para os palcos brasileiros, muitas pessoas se sentiram como eu me senti no começo do processo: em uma transformação de repensar e rever os seus principais valores. Muitos colegas chegaram para mim, depois de assistir e pesquisar, impressionados com como esses povos evoluem o pensamento.

A coisa mais especial dos curdos pra mim é: eles não têm terra, não existe o país Curdistão, e eles entendem que não é certo eles lutarem por terras. Porque a luta por terras levanta fronteiras, o que impossibilita que outros povos que não tenham terra, também as tenham. Então eles não querem mais terra, um Estado-nação, eles só querem que as pessoas tenham dignidade pra viver nos seus espaços. Se você pega o Curdistão hoje, são vários povos e etnias sem terra. Tem lugares que são várias pessoas de diversas etnias vivendo juntas, e aí eles questionam: porque é que o ser humano não se dá bem? Quem inventou que o ser humano é competitivo? É o ser humano que é realmente competitivo ou é o sistema que impõe a competição? 

Não é tão simples compreender esses ideais, porque é preciso que seja revisto os valores aos quais fomos educados aqui. Então trazer essa história para os palcos brasileiros é justamente uma tentativa de despertar nas pessoas a curiosidade de buscar, estudar e entender esses povos e esse pensamento. Minha personagem é uma brasileira apaixonada pela cultura curda, que quer fazer um projeto de cinema e que vai vender para uma empresa de petróleo. Então também discutimos sobre como o artista precisa se vender, como o Teatro se tornou um produto que precisa ser vendido para a sobrevivência dos artistas.

Divulgação Natalia Gonsales

TeE: E DURANTE A QUARENTA, A PEÇA ‘FÓSSIL’ FOI APRESENTADA NO ALIANÇA FRANCESA COM O PÚBLICO ONLINE, COM A RITA PISANO FAZENDO AS APRESENTAÇÕES NO SEU LUGAR. COMO FOI ASSISTIR ESSA PEÇA ONLINE COM OUTRA ATRIZ FAZENDO O SEU PAPEL?

NATALIA: Quando eu recebi a proposta de ser substituída, eu entendi que eu não posso ter apego, essa ideia de posse com o texto. Entendi que eu tinha que dar oportunidade para as pessoas trabalharem e receberem algo nesse momento difícil. O importante é que ainda estamos representando a luta curda, na esperança das pessoas aprenderem o pouco que aprendemos com esses povos. 

Eu assisti de casa, e é muito emocionante ver uma atriz como a Rita, a qual trabalhamos juntas no Beijo no Asfalto, se envolvendo e levando a discussão para mais ciclos de pessoas, ver a luta das mulheres ganhando mais espaço. Afinal de contas, a função da arte teatral é a comunicação, e eu não podia criar fronteiras com esse texto. 

TeE: E PARA O PÓS PANDEMIA, VOCÊS TÊM PLANOS DE VOLTAR COM ESSE TEXTO? OU TALVEZ FAZER MAIS APRESENTAÇÕES ONLINE DELE?

NATALIA:  Sim, com certeza. Eu tenho um pouco de dificuldade com as peças online, eu fico muito preocupada com as questões técnicas. Em uma das apresentações do fóssil, teve um problema de áudio e eu fiquei desesperada. Então esse lugar do teatro online, que não é nem 100% uma linguagem audiovisual e nem 100% teatro, me segura um pouco. A gente que é do teatro precisa do contato, da troca com o público, da força que é preciso ter em cena para uma casa cheia tanto pra quando se tem poucas pessoas assistindo. Essa energia que se cria a cada apresentação faz muita falta.

Claro que se tivermos mais oportunidades, com certeza faremos mais apresentações online, mesmo não sendo as condições que considero ideais. É muito importante contar essa história, então no final das contas, é isso o que realmente me interessa.

Divulgação Natalia Gonsales

Você que se interessou pela história dos povos curdos, o TeE te indica os seguintes sites para ler e entender um pouco mais sobre a luta curda:

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50012988

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/10/08/entenda-quem-sao-os-curdos-e-por-que-eles-estao-na-mira-de-uma-ofensiva-turca-na-siria.ghtml

https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/01/07/interna_internacional,1112651/curdos-em-compasso-de-espera-na-crise-ira-eua.shtml

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