O TEATRO DOS SETE

Foi no tempo em que trabalharam juntos, Fernanda, Sérgio e Fernando no Teatro Maria Della Costa que conheceram o Diretor Europeu Gianni Ratto. Quando o TBC chamou Gianni para dirigir seus trabalhos, o diretor convidou os três atores amigos para segui-lo. Ali no teatro da Major Diogo assinama um contrato de 3 anos. O elenco tinha carteira assinada e todas as garantias trabalhistas. O Teatro dos Sete teve início, de certa forma, no TBC, ali nasceu o sonho de ter um grupo dirigido por Ratto. Mas muito tempo ainda se passou…

Por volta de 1957 Sérgio Brito, Fernando Torres e outros atores, se juntaram e foram propor a TV Tupi do Rio de Janeiro, um teleteatro: Grande Teatro. Proposta aceita!
Fernanda, Sérgio e Fernando trabalhavam em paralelo no TBC e no Grande Teatro. A rotina não era leve. No TBC faziam 8 espetáculos por semana. Na madrugada, ensaiavam o Teleteatro. Aos domingos, terminada a segunda sessão, iam para o aeroporto e tomavam um avião que levava 3 horas até Rio, chegavam as 4 da manhã da Segunda e as 9:00 já estavam no estúdio para um ensaio com a equipe técnica do teleteatro. À noite exibiam o trabalho ao vivo. Na terça pela manhã voltavam para São Paulo e começava mais uma semana no mesmo ritmo: ensaios, espetáculos, estudio de tv.

Ao final de 1958, Gianni Ratto viaja para a Itália. Se ele se readaptasse a sua terra natal, não voltaria ao Brasil. Em paralelo, acabaram os contratos de Italo, Sérgio, Fernando e Fernanda com o TBC.
Seis meses depois da viagem de Ratto, este comunica seu retorno ao Brasil, assim se concretiza o antigo sonho dos 4 amigos: Um grupo de teatro.

O próximo passo foi se organizarem, juridicamente e escolher um nome. Sérgio Brito que, anos antes, fez parte de um grupo chamado “Teatro dos Doze”, sugeriu “Teatro dos Sete” já que eram um grupo com 7 pessoas:
Atores: Fernanda, Ítalo, Sergio britto, Fernando Torres;
Diretor: Gianni Ratto;
Figurinista: Luciana Petrucelli;
E Alfredo Souto de Almeida, que seria, a princípio, um misto de administrador e produtor.

Pouco depois, Alfredo decide não seguir com os companheiros já que entendia que o palco não era sua real vocação. Já Luciana, esposa de Gianni, continuaria na Itália e atenderia o grupo de lá. Assim, o grupo ficou com apenas 5 membros, mas teve o nome de inicio.
Diferente dos grupos em atividade na época, o teatro dos Sete não adotou o nome do primeiro ator para a companhia. E também não adotaram o sistema “Star System” de encenação, então as peças não são escolhidas apenas em função da oportunidade que os papéis podem oferecer aos “primeiros atores” da companhia. Foi também, o único grupo da época que não segue a fórmula tebecista de alternar grandes obras da dramaturgia universal, que atraem menos espectadores, com textos comerciais, que permitem pagar os prejuízos da montagem anterior.

Os integrantes da companhia “Teatro dos Sete”. Arquivo Pessoal/Globo Repórter/Reprodução

Como grupo, seguem na luta pela conquista de público e também com a necessidade de sustentar elenco e equipe técnica. Por isso, apesar dos ideais e forma de trabalho um pouco diferente dos demais, Os Sete também seguem um caminho mais comercial para sobreviverem.
Para ajuda financeira, só existiam os bancos, e eles não tinham nada a oferecer como garantia. A solução? Aproveitar o fenômeno que era o Grande Teatro. A cada intervalo do programa, um dos 4 fazia um convite aos público: Diziam que estavam organizando uma companhia de teatro e ofereciam assinaturas (carnês). Deu certo.
Durante semanas os espectadores d programa de tv, procuraram os artistas para adquirirem o carnê do grupo, que comtemplava: 4 encenações que ainda seriam divulgadas. Conseguiram um apoio conseistente. Mas somente Ratto seria pago, os outros 4 viveriam apenas da TV, a fim de que mais recursos sobrassem para as produções.

A estréia do Teatro dos Sete se deu com O Mambembe de Artur Azevedo. Segundo a crítica da época, um clima de alegria festiva tomou conta do público na estréia do espetáculo, reflexo da integração entre a platéia e o palco, onde os atores parecem ter como subtexto seu próprio amor pelo teatro. Foi um sucesso. Para esse espetáculo, foram ao Theatro Municipal do Rio – talvez eles guardassem cenários, figurinos sem utilidade e que pudessem ser usados pelo grupo. Marcaram uma reunião com o responsável pelo teatro, quando o homem soube que montariam Artur Azvedo ficou empolgado e ofereceu todo o apoio. Naquele ano, 1959, o Theatro Municipal completava 50 anos de fundação, e seu fundador fora ninguém menos que Artur Azevedo.

O segundo espetáculo da cia, em 1960, foi A Profissão da Senhora Warren, de Bernard Shaw, cumpre o compromisso da assinatura com os espectadores do Grande Teatro e é mais um sucesso que fica 3 meses em cartaz.

Logo investem em O Cristo Proclamado, de Francisco Pereira da Silva, uma peça de denúncia, realista e panfletária, que revela a política da fome no sertão do Piauí. Realizada no Copacabana Palace, a montagem limpa a tão conhecida caixa preta do palco, Não tem cenário, nem cortinas, e desaparecem – rotunda, tapadeiras e pano-de-boca. Essa inovação na produção, não agrada o público, que não entende a “econômia” e acaba considerando o espetáculo pobre de recursos. Contraste com o local luxuoso, muito frequentado por políticos e pela alta elite da época, a peça causava espanto aos poucos espectadores, aluns saiam no meio da encenação alegando que não iam ao teatro apra ver “gente suja e fedida”. Sem fôlego financeiro, a cia tirou o espetáculo de certaz após 3 semanas. O Cristo Proclamado, de Francisco Pereira da Silva causou debates: A direita achava que era coisa de comunista, e a esquerda condenava os artistas por interromperem uma peça de cunho social que deveriam manter em cartaz a qualque custo.

Após o fracasso, ainda em 1960 e com contas a pagar, montam novamente O Mambembe de Artur Azevedo e permanecem em cartaz por 3 meses enquanto tomam fôlego para preparar a próxima montagem: Com a Pulga Atrás da Orelha, de Georges Feydeau (que Gianni jpa havia dirigido na Companhi Maria Della Costa). Mesmo com uma certa crise financeira, Ratto faz suas retiradas jé que é o único que vive exclusivamente do grupo. Como não tinham conhecimento de patrocínios ou verbas estatais na época, o próximo passo foi o primeiro empréstimo bancário.
Em Outubro de 1960 estréiam Com a Pulga Atrás da Orelha que faz uma longa temporada, retomando o sucesso de crítica e público do grupo.

Deu-se o inicio aos ensaios de A Megera Domada de William Shakespeare. Em paraleloa, Gianni Ratto organiza um curso de interpretaçãoe cenografia, por onde passam: Irene Ravache, Tetê Medina, Carlos Vereza e Gracindo Júnior. No ano seguinte, O Teatro dos Sete recebe o convite para participar de Apague Meu Spotlight, uma comédia de Jocy de Oliveira – primeira obra eletroacústica multimídia apresentada no Brasil. Ratto assinou direção e cenografia. Apague Meu Spotlight fez parte da programação de música contemporânea apresentada pela Bienal em São Paulo e Rio de Janeiro durante uma semana. Mas a montagem teve apenas duas exibições (uma em cada cidade) por conta da complexidade.

Ainda em 1961, a equipe monta O Beijo no Asfalto de Nelson Rodrigues, com direção de Fernando Torres.
Sessões sempre lotadas. Houveram protestos, sempre de cunho moral: “Tarado!”, “Pornógrafo!”, “Protesto em nome da família brasileira!”. Com a esperança de que o sucesso da obra de Nelson daria o socorro de uma temporada em cartaz e garantiria a preparação para A Megera Domada, o Brasil foi sacudido com a renúncia de de Jânio Quadros, após sete meses na presidência. Com tudo, O Beijo encerrou as encenações antes do previsto, e junto também tiveram que encerrar o curso de interpretação e a produção de A Megera Domada.

Existia um caos político e econômico no país, e a companhia mal sabia como pagar suas dívidas. Como o show não pode parar, foi definido próximo trabalho: Festival de Comédia uma montagem de três peças curtas: Os Ciúmes de Um Pedestre, de Martins Pena; O Médico Volante, de Molière, e O Velho Ciumento, de Cervantes. Com temporada no Teatro Maison de France, tiveram uma encenação consagrada pela crítica, mas uma platéia mediana. Em maio de 1962 apresentaram a montagem das três peças em Curitiba. De volta ao Rio estrearam O Homem a Besta e a Virtude de Pirandello. Retomam o Festival de Comédia, dessa vez em São Paulo por uma mês, sem sucesso de público.

Sem tinham como começar outra montagem. A opção era usar o repertório que tinham nas mãos.
A convite da Secretaria de Cultura do Paraná, participariam do “Festival teatral Paranaense”, essa temporada com tudo pago, Mas resolveram, por conta própria, estenderem a excursão até Porto Alegre. Assim foi feito. Com as crises financeiras enfreitadas pelo Grupo, houve uma pausa. Em meados de 1963 os 5 agendam uma reunião e decidem pelo retorno aos palcos no início de 1964.

Era necessário tempo para organizar um novo repertório e também negociar a dpivida com o banco e conseguir mais dinheiro para as futuras produções. Em março de 1964, recebem um convita de Maria Thereza Goulart, então esposa do atual presidente – João Goulart, para um jantar. Alí, a primeira-dama revelou que gostaria de participar como atriz, em uma ação beneficente, de um ato teatral com o grupo. Ficou acertado então, que seria um ato beeficente e estrearia possivelmente em Brasília.

Ao inicio do período militar, marechal Castelo Branco se mostrou um homem culto e espectador teatral assíduo, sempre presente na platéia do grupo. Para gestora do Serviço Nacional de teatro, ele nomeou Bárbara Heliodora, que teve como primeiro ato, solicitar uma verba de socorro aos grupos teatrais e foi atendida. O Teatro dos sete foi contemplado e assim retomou a programação com Mirandolina de Goldoni, tiveram críticas consagrada e publico mediano novamente.

Reunião para decidir o próximo texto a ser montado. Ratto compartilha uma necessidade de exploração e a idéia de seguirem com duas estruturas teatrais. Um elenco: Ítalo, Fernanda, Sérgio e Fernando, que continuaria com a linha de repertórios que trabalharam; o segundo elenco viria do curso de encenação, com jovens talentos. Com o questionamento dos demais em como dar conta de duas frentes de trabalho se não davam conta de uma, com dívidas a pagar e precisando de mais dinheiro, e ainda, diante da proposta ousada o diretor, a reunião foi encerrada. Esse foi o último encontro como grupo.

Como as companhias de seu tempo, o Teatro dos Sete não tem uma linha dramatúrgica definida, montando tanto clássicos – Carlo Goldoni, Molière – quanto modernos – Bernard Shaw, Luigi Pirandello; como também textos brasileiros – Nelson Rodrigues, Martins Pena.

Texto por: Gabrielle Risso

Bibliografia
Encicloédia Itaú: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/grupo399332/teatro-dos-sete
História do Teatro Brasileiro: João Roberto Faria
Prólogo, ato, epílogo: Fernanda Montenegro com colaboração de Marta Góes

2 comentários

  1. Daniel Marano

    Parabéns pela iniciativa de contar a história do nosso teatro, e por esse texto tão bem preparado. Apenas duas observações (que não apagam o brilho do belo trabalho de vocês): o Teatro dos 7 nasceu, de fato, na Cia. Maria Della Costa, em 1954-1955. Foi ali que Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sergio Britto e Gianni Ratto se conheceram e trabalharam juntos pela primeira vez. Ali nasceu o desejo de formarem uma companhia. Como não havia essa possibilidade (por razões financeiras), e por causa do atrito do diretor (Ratto) com o produtor (Sandro Polloni, marido de Maria Della Costa), o grupo se desligou da companhia e fez um pit-stop no TBC – onde conheceram Italo Rossi, o quinto e fundamental elemento do Teatro dos 7. A fundação da companhia está fundamentalmente atrelada ao período em que o núcleo de atores trabalharam juntos no Teatro Maria Della Costa, e também, na televisão (na série de teleteatros “Grande Teatro”), a partir de 1956. Graças a visibilidade que a TV proporcionou a Fernanda, Italo e Sergio, foi possível arrecadar a verba necessária para a montagem das primeiras peças do Teatro dos 7. (O TBC foi só um pit-stop mesmo).

    Também é questionável afirmar que o grupo não adotava a linha tebecista de oscilação de repertório, uma vez que depois de uma comédia musical de apelo popular (“O Mambembe”), o grupo levou a cena um drama de pretensões filosóficas (“A Profissão da Sra. Warren”) que atingiu um público mais restrito (eles sabiam disso). E logo depois do retumbante fracasso da tentativa de fazer um teatro com mensagem social (“Cristo Proclamado”), o grupo encenou uma comédia delirante e inconsequente (“Com a Pulga Atrás da Orelha”), para reequilibrar o orçamento de produção – bem ao estilo TBC.

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